quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Guerra dos Morangos


 
Russos e americanos sempre foram rivais históricos tanto na política quanto na economia e nos esportes. A guerra fria assombrou o mundo durante décadas com ameaças de ataque nuclear de ambos os lados. Hoje o que vemos são americanos curiosos descobrindo os segredos da Rússia e russos cada vez mais visitando e comprando propriedades nos EUA. Havia muitos professores americanos trabalhando na escola comigo. Aliás, para aqueles que gostam de criticar os americanos em tudo, todos que lá conheci eram muito simpáticos e agradáveis. Entre eles o Andrew. Um sujeito bacana que estava sempre de bom humor. Gostava de contar estórias e piadas. Porém um dia ele protagonizou uma cena de choque cultural no mínimo inusitada para os dias de hoje. Estávamos lá, eu, o Andrew e a Amanda, uma professora inglesa, em uma lanchonete bem no centro de Moscou, perto da sede da escola e bem próximo da estação Tverskaya do metro. Era um sábado a tarde e tínhamos acabado de sair da reunião mensal de professores. Paramos ali para tomar um café e bater papo quando o Andrew disse que estava com vontade de comer morangos. Ele então se levantou e foi ao balcão pedir para a garota russa que atendia os fregueses. Como ele já estava em Moscou há algum tempo, falava russo perfeitamente bem para travar uma discussão que durou pelo menos uns dez minutos. A Amanda e eu, que não falávamos russo, ficamos de longe tentando entender que o se passava. Foi então que o Andrew voltou para a nossa mesa, muito contrariado, diga-se de passagem, com uma taça de sorvete com morangos por cima. O que aconteceu? Perguntamos. Ele explicou que havia pedido para a garota um prato com alguns morangos, mas ela teria dito que a lanchonete não servia morangos. Eles só eram servidos como enfeite do sorvete. Ele então deixou claro que não queria sorvete, apenas morangos. Mas a russa, como de costume, não aceitou o argumento do americano e continuou explicando que aquelas eram as regras da casa. Não restando outra alternativa para matar sua vontade de comer morangos, ele então cedeu e pediu a taça de sorvete de creme com morangos por cima. Que absurdo! Como pode! Não há liberdade neste país! Ele continuou retrucando enquanto separava os pedaços de morango do sorvete. Sendo inglesa e para seguir a tradição da aliança entre a Terra da Rainha e o País do Tio Sam, a Amanda concordou e deu o maior apoio ao nosso amigo americano. Eu, que não quis tomar partido nenhum, me diverti muito ao presenciar a guerra do morango em pleno território russo. E pensar que em um passado não muito distante a questão era disparar ou não um míssil contra o outro. E para finalizar fiquei tentando imaginar a mesma cena acontecendo no Brasil. Um estrangeiro que quisesse comer apenas carne de porco teria uma enorme dificuldade em retirar todo feijão preto, a farofa e a couve da feijoada.
 

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