sábado, 29 de setembro de 2012
A Garagem da Vizinha
A Garagem da Vizinha
A grande maioria dos prédios residenciais de Moscou foi construída no pós-guerra, durante o período soviético e fazia parte do plano de desenvolvimento da cidade. São inúmeros edifícios enfileirados com um complexo sistema de identificação que complica a vida dos visitantes não acostumados com esse sistema. Porém, a maior dificuldade dos moradores é não possuir garagens para seus automóveis, que são estacionados indiscriminadamente em frente aos respectivos apartamentos.
Alguns proprietários mais afortunados, até pouco tempo atrás, possuíam containers que se espalhavam pelos parques entre os prédios, chegando a tomar o espaço que se destinava ao lazer dos moradores, principalmente das crianças e jovens. E era nesses containers que eles guardavam seus possantes. Quem não possuía um container, se obrigava a deixar o veículo na rua, ao relento.
Num determinado momento, por coincidência, justamente no período em que eu estava morando lá, a prefeitura determinou que os containers, que enfeiavam a paisagem, fossem proibidos. Era o fim do privilégio de uns em detrimento de outros. Mas como resolver a questão das garagens?
Ficou determinado que os condôminos deveriam se reunir e juntos construiriam garagens padronizadas em frente aos prédios. Essas garagens por sua vez pareciam gaiolas com telhado, todas do mesmo tamanho. E assim, logo as garagens-gaiolas verdes se espalharam pelo bairro, menos na minha rua.
Os meus vizinhos fizeram várias reuniões noturnas para calcular o espaço e definir quantas garagens seriam construídas. Depois de tudo planejado, cálculo de despesas elaborado e desenho feito no computador pelo Alexander, que era engenheiro e designer de móveis, apareceu a Irina na estória. Começou a discussão. Ela não tinha carro e por isso não tinha sido contada no planejamento.
- Injustiça! Ela esbravejava. Todos que possuem apartamento nesta rua tem direito a uma vaga, independente de ter carro ou não.
Ela estava decidida a levar a briga até o final. E ameaçou fazer uma reclamação formal na prefeitura se seu nome não constasse da lista de novos proprietários de garagens-gaiolas daquele bloco da Rua Bakinski Komissarov, próxima à estação Yugo-Zapadnaya do metrô.
Quando fui perguntar ao Alexander e ao Sergey o motivo daquele “barraco” na frente do prédio que ocorrera na noite anterior, eles até tentaram me convencer de que a Irina se tratava de uma solteirona maluca e recalcada, e que por não ter carro, não precisaria de uma vaga. Mas com todo o cuidado que a diplomacia internacional recomenda numa situação como essa, dei a eles a minha opinião de estrangeiro que estava analisando o problema da forma mais imparcial possível:
- Pela lógica, o número de garagens deveria ser igual ao número de apartamentos, e não ao de carros. Ou vocês esqueceram as raízes socialistas que conduziram este país até aqui?
Eles finalmente concordaram comigo, e mais importante, com a Irina. Porém após mais cálculos, novos projetos e desenhos, muitas e muitas reuniões regadas a vodca com picles, todos chegaram à uma triste conclusão: se uma garagem fosse acrescentada ao projeto original, a construção completa ultrapassaria o limite do espaço e avançaria até a calçada, o que era proibido.
O prazo para finalização das obras estabelecido pela prefeitura venceu. Os moradores não conseguiram chegar a um acordo que beneficiasse a todos e assim os carros, dali em diante, passaram a ficar estacionados na rua, sem container, sem gaiola, sem telhado.
O verão se foi. O espetáculo do outono durou muito pouco. A Irina finalmente apareceu com um carro. Diziam uns que era presente do novo namorado. Da minha janela dava para ver o Lada 2107 branco que posava todo pomposo, coberto de neve nas manhãs geladas da grande capital Russa.
sábado, 1 de setembro de 2012
A Pianista e o Turista Italiano
Moscou
respira música. E a música clássica se espalha pelos quatro cantos da cidade.
Pequenos e grandes concertos tomam conta dos inúmeros espaços reservados para
apresentações. E mesmo que não haja nenhum evento, vale a pena visitar esses
locais nem que seja para apreciar a arquitetura.
É claro que
o monumental Teatro Bolshoi é o mais famoso. A maior casa de ópera e berço do
balé russo, onde tudo que reluz é ouro, é capaz de remeter os visitantes mais
afortunados aos gloriosos tempos do luxo czarista.
Queria ver
tudo isso de perto, mas o Bolshoi estava passando por uma extensa restauração e
por isso estava fechado para visitação. Com certeza o governo gastou muito mais
ali do que gastamos aqui para construir ou reformar nossos estádios de futebol.
Num final de
tarde, passando em frente ao teatro, notei que havia um grupo com um guia que
apontava para as colunas parecendo descrever o local. Minha curiosidade me
levou a me aproximar. Se tivesse sorte o bastante, o guia estaria falando
inglês ou no mínimo espanhol e assim entenderia o que estava sendo dito. Era
italiano. Mesmo assim achei que valeria a pena investir. Fui seguindo o grupo e
quase sem querer, como todo bom penetra, acabei entrando. Era um pequeno hall,
talvez não fosse a entrada principal. Apesar de já estar satisfeito por ter
dado uma espiada, me distraí olhando pra cima e acabei me afastando do grupo.
No mesmo
instante em que uns seguranças brucutus vinham em minha direção, já soltando o
brado retumbante da delicadeza que lhes é peculiar, uma moça linda, com um
vestido preto deslumbrante, e com uma elegância contrastante com a dos
seguranças, me pegou pelo braço e me levou para onde estava o grupo de
italianos. Ela me disse algo em italiano e eu só pude repetir: Grazie! Grazie!
Era tudo que tinha aprendido nas novelas brasileiras.
Ela logo
desapareceu e quando olhei ao meu redor tive a certeza de que não deveria estar
ali. Estavam servindo um coquetel com canapés de caviar e vinho branco, tudo
muito requintado para um simples professor de inglês. Antes que pudesse procurar
pela saída, já estava com uma taça na mão. Logo a moça retornou, sentou-se ao
piano e iniciou um pequeno concerto que durou uns vinte minutos. Assim que ela
parou de tocar, todos se aproximaram e brindaram-na, parabenizando-a pela bela
música.
Não havia
momento mais propício para, sorrateira e estrategicamente, sair de cena. Cruzei
a sala, passei pelo pequeno hall na entrada e ganhei as frias ruas da cidade.
Até hoje não
sei quem eram e o que celebravam. Talvez o avanço das obras dentro do teatro.
Mas serei sempre grato à pianista russa que me
proporcionou uma tarde-noite inesquecível!
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
A Guerra dos Morangos
Russos e americanos sempre foram rivais históricos tanto na política quanto na economia e nos esportes. A guerra fria assombrou o mundo durante décadas com ameaças de ataque nuclear de ambos os lados.
Hoje o que vemos são americanos curiosos descobrindo os segredos da Rússia e russos cada vez mais visitando e comprando propriedades nos EUA.
Havia muitos professores americanos trabalhando na escola comigo. Aliás, para aqueles que gostam de criticar os americanos em tudo, todos que lá conheci eram muito simpáticos e agradáveis. Entre eles o Andrew. Um sujeito bacana que estava sempre de bom humor. Gostava de contar estórias e piadas. Porém um dia ele protagonizou uma cena de choque cultural no mínimo inusitada para os dias de hoje.
Estávamos lá, eu, o Andrew e a Amanda, uma professora inglesa, em uma lanchonete bem no centro de Moscou, perto da sede da escola e bem próximo da estação Tverskaya do metro.
Era um sábado a tarde e tínhamos acabado de sair da reunião mensal de professores. Paramos ali para tomar um café e bater papo quando o Andrew disse que estava com vontade de comer morangos. Ele então se levantou e foi ao balcão pedir para a garota russa que atendia os fregueses. Como ele já estava em Moscou há algum tempo, falava russo perfeitamente bem para travar uma discussão que durou pelo menos uns dez minutos.
A Amanda e eu, que não falávamos russo, ficamos de longe tentando entender que o se passava. Foi então que o Andrew voltou para a nossa mesa, muito contrariado, diga-se de passagem, com uma taça de sorvete com morangos por cima.
O que aconteceu? Perguntamos.
Ele explicou que havia pedido para a garota um prato com alguns morangos, mas ela teria dito que a lanchonete não servia morangos. Eles só eram servidos como enfeite do sorvete. Ele então deixou claro que não queria sorvete, apenas morangos. Mas a russa, como de costume, não aceitou o argumento do americano e continuou explicando que aquelas eram as regras da casa. Não restando outra alternativa para matar sua vontade de comer morangos, ele então cedeu e pediu a taça de sorvete de creme com morangos por cima.
Que absurdo! Como pode! Não há liberdade neste país! Ele continuou retrucando enquanto separava os pedaços de morango do sorvete. Sendo inglesa e para seguir a tradição da aliança entre a Terra da Rainha e o País do Tio Sam, a Amanda concordou e deu o maior apoio ao nosso amigo americano.
Eu, que não quis tomar partido nenhum, me diverti muito ao presenciar a guerra do morango em pleno território russo. E pensar que em um passado não muito distante a questão era disparar ou não um míssil contra o outro.
E para finalizar fiquei tentando imaginar a mesma cena acontecendo no Brasil. Um estrangeiro que quisesse comer apenas carne de porco teria uma enorme dificuldade em retirar todo feijão preto, a farofa e a couve da feijoada.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Leitura sobre trilhos
O povo russo é por natureza entusiasta da leitura. Basta citar alguns dos nomes mais famosos da literatura russa como Alexander Pushkin, Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoi e Anton Tchekhov para entender essa paixão pelos livros.
Para muitos críticos literários brasileiros, são muitas as semelhanças entre as obras de lá com as nossas, principalmente no que diz respeito à complexidade das tramas e aos detalhes das narrativas.
A foto aqui retrata bem o que acontece no dia-a-dia dos passageiros do metrô. Para qualquer lado que se olhe, encontra-se alguém com um livro aberto. A vantagem é que não se ouve o excesso de música irritante presente no nosso metrô. O silêncio só é quebrado pelo anúncio do auto-falante.
Como já dizia o ditado: "Em Roma, aja como romano" e se ainda pode-se acrescentar que Moscou é a Roma do leste, decidi que para me sentir mais a vontade e parecido com todos os outros passageiros do metrô, teria que trazer uma leitura comigo todos os dias.
No início apenas pegava um exemplar do Moscow Times na escola e me espremia entre um leitor e outro na linha vermelha do metrô. Seria ótimo praticar o inglês e ainda me manter informado. Mas logo percebi que os olhares que me cruzavam não eram dos mais amigáveis. Uns pareciam um tanto desconfiados, outros até um pouco agressivos. Era como sentar com a camisa do seu time no meio da torcida adversária na final do campeonato. A explicação é bem simples: o Moscow Times é escrito por jornalistas americanos ou britânicos e trazem uma visão estrangeira sobre os fatos locais. Precisava de um livro genuinamente russo, mas não sabia o bastante ainda para ler em russo. Assim fui pedir alguns conselhos para os alunos. Ouvi deles o que eles sempre ouviam de mim: não importa que não consiga entender tudo; tente ler para obter uma compreensão geral e em seguida pesquise o vocabulário; aos poucos vai ampliando o conhecimento e se familiarizando com as palavras e expressões que mais se repetem nos textos.
Naquele mesmo dia parei em frente a uma banca de livros que se instalava na calçada da Rua Tverskaya, uma das mais movimentadas do centro, onde ficava a unidade sede da escola, e fiquei tentando escolher um título sob o plástico que protegia os livros da neve fina que caia. Peguei a capa mais atraente que encontrei, toda preta com dizeres dourados em letras grandes, paguei 100 rublos e desci as escadas que dão acesso à estação Okhotnyi Riad. A noite o trem não vai tão lotado, assim não seria tão difícil conseguir lugar para sentar e iniciar minha leitura, sem precisar me acotovelar com os outros leitores. Pulei as primeiras páginas onde estavam o prefácio, o índice, a dedicatória e a introdução e fui direto ao primeiro capítulo. Não reconheci nem 1% das palavras e confesso que não tinha a mínima noção do tema do livro. Mas continuaria mesmo assim e seguiria a sugestão dos alunos. Lembrei de dar uma olhada ao meu redor pra me certificar de que agora seria aceito como mais um do bando de leitores sobre os trilhos e fiquei surpreso com os olhares mais simpáticos. Alguns passageiros até sorriam pra mim enquanto outros cochichavam. Espere um momento! Algo estranho no ar. De onde vem toda essa simpatia? O que estão achando engraçado? Não demorou muito pra descobrir. Cheguei em casa e fui direto ao Google tradutor. O título dourado em letras grandes dizia:
"Os benefícios do sexo na terceira idade".
Não dava pra esconder que se tratava de um estrangeiro sem a mínima noção do que estava lendo. Mas não desisti. No dia seguinte trouxe meu livro comigo de novo, devidamente encapado.
Para muitos críticos literários brasileiros, são muitas as semelhanças entre as obras de lá com as nossas, principalmente no que diz respeito à complexidade das tramas e aos detalhes das narrativas.
A foto aqui retrata bem o que acontece no dia-a-dia dos passageiros do metrô. Para qualquer lado que se olhe, encontra-se alguém com um livro aberto. A vantagem é que não se ouve o excesso de música irritante presente no nosso metrô. O silêncio só é quebrado pelo anúncio do auto-falante.
Como já dizia o ditado: "Em Roma, aja como romano" e se ainda pode-se acrescentar que Moscou é a Roma do leste, decidi que para me sentir mais a vontade e parecido com todos os outros passageiros do metrô, teria que trazer uma leitura comigo todos os dias.
No início apenas pegava um exemplar do Moscow Times na escola e me espremia entre um leitor e outro na linha vermelha do metrô. Seria ótimo praticar o inglês e ainda me manter informado. Mas logo percebi que os olhares que me cruzavam não eram dos mais amigáveis. Uns pareciam um tanto desconfiados, outros até um pouco agressivos. Era como sentar com a camisa do seu time no meio da torcida adversária na final do campeonato. A explicação é bem simples: o Moscow Times é escrito por jornalistas americanos ou britânicos e trazem uma visão estrangeira sobre os fatos locais. Precisava de um livro genuinamente russo, mas não sabia o bastante ainda para ler em russo. Assim fui pedir alguns conselhos para os alunos. Ouvi deles o que eles sempre ouviam de mim: não importa que não consiga entender tudo; tente ler para obter uma compreensão geral e em seguida pesquise o vocabulário; aos poucos vai ampliando o conhecimento e se familiarizando com as palavras e expressões que mais se repetem nos textos.
Naquele mesmo dia parei em frente a uma banca de livros que se instalava na calçada da Rua Tverskaya, uma das mais movimentadas do centro, onde ficava a unidade sede da escola, e fiquei tentando escolher um título sob o plástico que protegia os livros da neve fina que caia. Peguei a capa mais atraente que encontrei, toda preta com dizeres dourados em letras grandes, paguei 100 rublos e desci as escadas que dão acesso à estação Okhotnyi Riad. A noite o trem não vai tão lotado, assim não seria tão difícil conseguir lugar para sentar e iniciar minha leitura, sem precisar me acotovelar com os outros leitores. Pulei as primeiras páginas onde estavam o prefácio, o índice, a dedicatória e a introdução e fui direto ao primeiro capítulo. Não reconheci nem 1% das palavras e confesso que não tinha a mínima noção do tema do livro. Mas continuaria mesmo assim e seguiria a sugestão dos alunos. Lembrei de dar uma olhada ao meu redor pra me certificar de que agora seria aceito como mais um do bando de leitores sobre os trilhos e fiquei surpreso com os olhares mais simpáticos. Alguns passageiros até sorriam pra mim enquanto outros cochichavam. Espere um momento! Algo estranho no ar. De onde vem toda essa simpatia? O que estão achando engraçado? Não demorou muito pra descobrir. Cheguei em casa e fui direto ao Google tradutor. O título dourado em letras grandes dizia:
"Os benefícios do sexo na terceira idade".
Não dava pra esconder que se tratava de um estrangeiro sem a mínima noção do que estava lendo. Mas não desisti. No dia seguinte trouxe meu livro comigo de novo, devidamente encapado.
terça-feira, 3 de abril de 2012
O Homem-Cogumelo
Moscou é uma cidade de muitos prédios. Não há uma casa sequer. Todos moram em apartamentos de era soviética. Quem quer ter uma casa precisa se mudar para as cidades mais afastadas e dirigir por horas e horas todos os dias pra chegar ao trabalho. Nada diferente do que temos aqui.O lado bom é que tem muito verde por lá. Muitos parques com árvores que se espalham por todo canto. Um convite para uma caminhada durante o horário de almoço, um passeio garantido numa tarde de sol no fim de semana e muita diversão para a garotada que toma conta desses lugares tanto no inverno quanto no verão. Eles vão patinar, esquiar e até jogar futebol, que disputa com o hóquei o primeiro lugar no coração dos esportistas.
Mas o que dizer desses parques quando cai a noite? Como em qualquer outro lugar do mundo, se transformam em lugares escuros e assombrosos que devem ser evitados por pessoas com um mínimo de prudência.
Quem nunca ouviu falar em maníaco do parque por aqui? Em Moscou não é diferente. Muitas pessoas por lá afirmam saber de casos horripilantes de ataques de maníacos, ladrões e batedores de carteiras em geral. Não é necessário dizer que as moças indefesas são as maiores vítimas desses crimes. Eu, por exemplo, não tive problema nenhum desse tipo enquanto estive por lá, embora sempre ouvisse as pessoas relatar casos dessa natureza.
Porém, um certo dia, durante uma aula, o assunto era criminalidade nas grandes cidades e muitos alunos contaram casos que haviam se tornado primeira página nos jornais locais.
O que mais me chamou a atenção foi de uma garota chamada Olga, que após um dia cansativo de trabalho, em plena crise financeira mundial, tinha se desentendido com o chefe na empresa onde trabalhava e estava muito preocupada com a possibilidade de perder o emprego. Nesse mesmo dia ela tinha marcado um encontro com uma amiga que não via já há algum tempo e achava que seria uma boa oportunidade para desabafar com ela seus problemas pessoais.
O encontro daquele final de tarde seria num café que ficava do outro lado de um parque. Ela tinha a opção de caminhar ao redor do parque, mas isso faria da caminhada um tanto quanto mais longa e cansativa. Por isso decidiu enfrentar o caminho mais curto. Já começava a anoitecer e a lembrança de estórias de ataques a mulheres indefesas nesses locais tomavam conta de sua imaginação. Não havia uma só alma viva naquele lugar, o que nunca se sabe se é uma vantagem ou um sinal de perigo maior. A todo e qualquer barulho de pássaros ou esquilos que ali habitavam, seu coração acelerava um pouco mais.
Aos poucos foi ganhando confiança, pois já estava bem próxima da saída e pensava que dali pra frente nada mais podia acontecer. Mas ela estava enganada. Algo estranho se moveu à sua frente. Não podia identificar. Sabia que não deveria ser um animal pequeno pois tinha visto um vulto alto, algo com uma cabeça enorme. Nesse instante ela já não conseguia se decidir entre continuar no seu caminho ou voltar para o lado contrário. As pernas amoleceram e aquele arrepio por baixo da pele fazia cada pelo do corpo se levantar. Antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, aquela criatura de cabeça gigante estava parada na sua frente, estendendo o braço com um panfleto.
Era o homem-cogumelo. O que é isso? Bem o homem-cogumelo nada mais era do que um homem vestido de cogumelo, entregando panfletos do restaurante para promover a saborosa sopa de cogumelos da casa. Aliás, sopa esta que é um prato muito presente na mesa das famílias russas e diga-se de passagem, é uma delícia!
Por quase um segundo ela teve ódio daquele idiota que a assustara, mas logo pensou que ele estava apenas fazendo seu trabalho e admitiu que até ficara feliz em vê-lo. Numa situação como essa, é melhor dar de cara com o homem-cogumelo do que com o lobisomem ou o maníaco do parque.
No restaurante a sua amiga já esperava e elas puderam enfim colocar a conversa em dia. É claro que tiveram tempo pra se divertir com a estória do homem-cogumelo. Riram muito.
Mas o tempo passou depressa e chegava a hora de voltar pra casa. Elas sabiam que o dia seguinte seria mais um difícil dia de trabalho naqueles tempos de crise.
Olga achava que elas deveriam tomar um taxi, mas a amiga não concordou, pois as duas iriam em direções diferentes e então sugeriu que a melhor opção seria atravessar o parque novamente para tomar a “marshrutka”, as famosas vans que integram o sistema de transporte por lá também.
- Atravessar o parque de novo? Olga não tinha certeza de que seria uma boa idéia. Mas sua amiga a acalmou fazendo piada dessas crendices populares:
- Por que não? Não diga que está com medo do homem-cogumelo? Quem sabe não haja um príncipe encantado por baixo daquela roupa de cogumelo gigante?
As duas amigas riram muito e entraram no parque sem se preocupar com o risco que estavam correndo, afinal nada de mal tinha acontecido.
A noite estava muito gelada e elas andavam abraçadas pra amenizar o frio.
A amiga continua falando para espantar o medo:
- Parece que o inverno está se aproximando e logo teremos a primeira...Espere um pouco! Minha bolsa!
- O quê? Ficou no restaurante! Vamos ter que voltar.
- Desculpe-me, amiga!
- Tudo bem, concordou Olga. Afinal não podiam se separar ali. Era melhor que ficassem juntas.
E assim voltaram em direção ao restaurante. Mas agora as risadas davam lugar a um medo estranho. Por que se sentiam assim? Já tinham feito esse caminho antes. Será que seria abusar demais da sorte? Não havia outro jeito. Todos os documentos, cartões e dinheiro estavam na bolsa. Será que ainda encontraria o restaurante aberto?
O silêncio tomava conta do caminho. O único som que as acompanhava era de seus próprios passos sobre as folhas molhadas espalhadas pelo chão, ainda um sinal de que o outono há pouco tinha passado por ali. Uma névoa espessa dava ao cenário um ar ainda mais assustador, perfeito para os criadores de contos policiais ou de estórias de terror.
Finalmente, após intermináveis minutos de caminhada, puderam avistar a única luz acesa do outro lado da rua, já fora do parque. Sabiam que assim que pisassem na rua estariam a salvo.
Mas nem sempre as coisas acontecem como imaginamos. Um vulto surge por de trás de uma árvore e as duas gritaram desesperadamente por socorro. Tinham certeza que dessa vez não era o homem-cogumelo, pois não tinha aquela cabeça enorme por causa da fantasia. Era a figura de um homem. Tinha uma ferramenta nas mãos, apoiada no ombro, uma enxada ou uma foice, não dava pra identificar à distancia e no escuro. Pensaram em correr, mas o homem se movia rapidamente na direção das duas amigas. Não tinham para onde fugir.
Não havia mais o que fazer. As duas amigas se abraçaram, fecharam os olhos e gritaram por socorro. Um grito tão estridente que se ouvia a distancia. Neste momento só passavam pensamentos horríveis pela cabeça das duas. Por alguns segundos pensaram já estar mortas, pois não sentiam dor nenhuma. O que por outro lado poderia ser um bom sinal.
Foi aí então que praticamente ao mesmo tempo, resolveram abrir os olhos e parar de gritar, já que a essa altura não tinham mais energia. Ainda um pouco atordoadas pela própria gritaria, avistaram um homem estático muito assustado por sinal, parado a poucos metros a frente delas. Ele não poderia ter imaginado que causaria tamanho assombro às duas amigas.
Era o homem-cogumelo. Mas agora sem a fantasia e com uma vassoura em uma das mãos e a bolsa da amiga da Olga na outra. Finalmente ele teve chance de explicar que tinha visto as duas saindo do restaurante e já estava começando a limpar a casa após um longo dia de trabalho quando notou que uma delas havia deixado a bolsa sobre a cadeira.
As lágrimas não paravam de rolar nos rostos das duas amigas e o rapaz sem saber direito como reagir, simplesmente virou as costas e voltou para terminar seu trabalho no restaurante. As duas ainda com aquele tremor nas pernas que as faziam caminhar mais devagar, seguiram o caminho em direção ao outro lado do parque novamente. E enquanto alternavam períodos de silêncio com ataques de risos a amiga da Olga se virou e disse:
- Até que ele é bem simpático!
sexta-feira, 30 de março de 2012
Intermináveis 3 minutos
O que dá pra fazer em três minutos? Vou deixar a resposta a critério de cada um. Parece pouco tempo para a maioria das atividades. Mas alguém já ficou em pé por 3 minutos numa escada rolante? Isso acontece em algumas estações de metrô de Moscou. Eu aproveitava este tempo para uma última lida na unidade do livro que daria em aula logo em seguida. Alguns casais achavam mais jogo dar um longo beijo enquanto outros dividiam uma barra de chocolate.Como se vê na foto, as escadas rolantes são assim mesmo. Forma-se uma fila ao pé da escada e as pessoas vão entrando, subindo ou descendo, uma a uma do lado direito, para deixar a esquerda livre para os mais apressadinhos.
No início até gostava de observar como essas coisas funcionavam tal qual engrenagens de uma grande máquina russa, mas depois, aos poucos fui me adaptando e me inserindo cada vez mais naquele sistema. Eu era apenas mais uma peça a se encaixar no quebra-cabeça gigante.
Na estação Frunzenskaya, a escada rolante levava apenas 2 minutos para atingir a saída. Ali eu desembarcava todas as terças e quintas de manhã para aulas numa empresa. A caminhada até o prédio era bastante agradável por meio de uma feira que se instalava logo cedo. Diferentes aromas despertavam a minha curiosidade, mas esta é uma outra estória.
Num belo dia, se é que podemos chamar de belo um dia
de céu nublado com temperatura negativa e ar congelante, voltando para o metrô após as aulas, entro na estação e já me posiciono na fila para descer a escada rolante. De repente um pequeno tumulto, aglomeração de pessoas e parece que a engrenagem russa não está funcionando bem.
Lá de cima consigo ver um grupo de jovens com mochilas nas costas tomando todo o espaço na escada. Claro! Pensei comigo: aqui também há aqueles que não se encaixam no esquema. Olha só, estão bloqueando a passagem das pessoas pelo lado esquerdo. Que vergonha!
Para a alegria geral da grande nação russa, aos poucos as coisas vão voltando à normalidade, os rapazes chegam lá embaixo e a passagem é liberada.
Ainda faltam alguns segundos para eu chegar ao final da escada, mas já identifico uma língua familiar que há muito não ouvia. Sim! Português! Por quase um segundo me distraio com uma certa alegria de ver aqueles garotos, turistas brasileiros com mapas nas mãos. Mas sigo em frente sem falar com ninguém. Eles não conhecem as engrenagens da máquina local. Que vergonha!
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