terça-feira, 26 de junho de 2012

Leitura sobre trilhos

O povo russo é por natureza entusiasta da leitura. Basta citar alguns dos nomes mais famosos da literatura russa como Alexander Pushkin, Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoi e Anton Tchekhov para entender essa paixão pelos livros.
Para muitos críticos literários brasileiros, são muitas as semelhanças entre as obras de lá com as nossas, principalmente no que diz respeito à complexidade das tramas e aos detalhes das narrativas.
A foto aqui retrata bem o que acontece no dia-a-dia dos passageiros do metrô. Para qualquer lado que se olhe, encontra-se alguém com um livro aberto. A vantagem é que não se ouve o excesso de música irritante presente no nosso metrô. O silêncio só é quebrado pelo anúncio do auto-falante.
Como já dizia o ditado: "Em Roma, aja como romano" e se ainda pode-se acrescentar que Moscou é a Roma do leste, decidi que para me sentir mais a vontade e parecido com todos os outros passageiros do metrô, teria que trazer uma leitura comigo todos os dias.
No início apenas pegava um exemplar do Moscow Times na escola e me espremia entre um leitor e outro na linha vermelha do metrô. Seria ótimo praticar o inglês e ainda me manter informado. Mas logo percebi que os olhares que me cruzavam não eram dos mais amigáveis. Uns pareciam um tanto desconfiados, outros até um pouco agressivos. Era como sentar com a camisa do seu time no meio da torcida adversária na final do campeonato. A explicação é bem simples: o Moscow Times é escrito por jornalistas americanos ou britânicos e trazem uma visão estrangeira sobre os fatos locais. Precisava de um livro genuinamente russo, mas não sabia o bastante ainda para ler em russo. Assim fui pedir alguns conselhos para os alunos. Ouvi deles o que eles sempre ouviam de mim: não importa que não consiga entender tudo; tente ler para obter uma compreensão geral e em seguida pesquise o vocabulário; aos poucos vai ampliando o conhecimento e se familiarizando com as palavras e expressões que mais se repetem nos textos.
Naquele mesmo dia parei em frente a uma banca de livros que se instalava na calçada da Rua Tverskaya, uma das mais movimentadas do centro, onde ficava a unidade sede da escola, e fiquei tentando escolher um título sob o plástico que protegia os livros da neve fina que caia. Peguei a capa mais atraente que encontrei, toda preta com dizeres dourados em letras grandes, paguei 100 rublos e desci as escadas que dão acesso à estação Okhotnyi Riad. A noite o trem não vai tão lotado, assim não seria tão difícil conseguir lugar para sentar e iniciar minha leitura, sem precisar me acotovelar com os outros leitores. Pulei as primeiras páginas onde estavam o prefácio, o índice, a dedicatória e a introdução e fui direto ao primeiro capítulo. Não reconheci nem 1% das palavras e confesso que não tinha a mínima noção do tema do livro. Mas continuaria mesmo assim e seguiria a sugestão dos alunos. Lembrei de dar uma olhada ao meu redor pra me certificar de que agora seria aceito como mais um do bando de leitores sobre os trilhos e fiquei surpreso com os olhares mais simpáticos. Alguns passageiros até sorriam pra mim enquanto outros cochichavam. Espere um momento! Algo estranho no ar. De onde vem toda essa simpatia? O que estão achando engraçado? Não demorou muito pra descobrir. Cheguei em casa e fui direto ao Google tradutor. O título dourado em letras grandes dizia:
"Os benefícios do sexo na terceira idade".
Não dava pra esconder que se tratava de um estrangeiro sem a mínima noção do que estava lendo. Mas não desisti. No dia seguinte trouxe meu livro comigo de novo, devidamente encapado.

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