Moscou
respira música. E a música clássica se espalha pelos quatro cantos da cidade.
Pequenos e grandes concertos tomam conta dos inúmeros espaços reservados para
apresentações. E mesmo que não haja nenhum evento, vale a pena visitar esses
locais nem que seja para apreciar a arquitetura.
É claro que
o monumental Teatro Bolshoi é o mais famoso. A maior casa de ópera e berço do
balé russo, onde tudo que reluz é ouro, é capaz de remeter os visitantes mais
afortunados aos gloriosos tempos do luxo czarista.
Queria ver
tudo isso de perto, mas o Bolshoi estava passando por uma extensa restauração e
por isso estava fechado para visitação. Com certeza o governo gastou muito mais
ali do que gastamos aqui para construir ou reformar nossos estádios de futebol.
Num final de
tarde, passando em frente ao teatro, notei que havia um grupo com um guia que
apontava para as colunas parecendo descrever o local. Minha curiosidade me
levou a me aproximar. Se tivesse sorte o bastante, o guia estaria falando
inglês ou no mínimo espanhol e assim entenderia o que estava sendo dito. Era
italiano. Mesmo assim achei que valeria a pena investir. Fui seguindo o grupo e
quase sem querer, como todo bom penetra, acabei entrando. Era um pequeno hall,
talvez não fosse a entrada principal. Apesar de já estar satisfeito por ter
dado uma espiada, me distraí olhando pra cima e acabei me afastando do grupo.
No mesmo
instante em que uns seguranças brucutus vinham em minha direção, já soltando o
brado retumbante da delicadeza que lhes é peculiar, uma moça linda, com um
vestido preto deslumbrante, e com uma elegância contrastante com a dos
seguranças, me pegou pelo braço e me levou para onde estava o grupo de
italianos. Ela me disse algo em italiano e eu só pude repetir: Grazie! Grazie!
Era tudo que tinha aprendido nas novelas brasileiras.
Ela logo
desapareceu e quando olhei ao meu redor tive a certeza de que não deveria estar
ali. Estavam servindo um coquetel com canapés de caviar e vinho branco, tudo
muito requintado para um simples professor de inglês. Antes que pudesse procurar
pela saída, já estava com uma taça na mão. Logo a moça retornou, sentou-se ao
piano e iniciou um pequeno concerto que durou uns vinte minutos. Assim que ela
parou de tocar, todos se aproximaram e brindaram-na, parabenizando-a pela bela
música.
Não havia
momento mais propício para, sorrateira e estrategicamente, sair de cena. Cruzei
a sala, passei pelo pequeno hall na entrada e ganhei as frias ruas da cidade.
Até hoje não
sei quem eram e o que celebravam. Talvez o avanço das obras dentro do teatro.
Mas serei sempre grato à pianista russa que me
proporcionou uma tarde-noite inesquecível!

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