sábado, 1 de setembro de 2012

A Pianista e o Turista Italiano




Moscou respira música. E a música clássica se espalha pelos quatro cantos da cidade. Pequenos e grandes concertos tomam conta dos inúmeros espaços reservados para apresentações. E mesmo que não haja nenhum evento, vale a pena visitar esses locais nem que seja para apreciar a arquitetura.

É claro que o monumental Teatro Bolshoi é o mais famoso. A maior casa de ópera e berço do balé russo, onde tudo que reluz é ouro, é capaz de remeter os visitantes mais afortunados aos gloriosos tempos do luxo czarista.

Queria ver tudo isso de perto, mas o Bolshoi estava passando por uma extensa restauração e por isso estava fechado para visitação. Com certeza o governo gastou muito mais ali do que gastamos aqui para construir ou reformar nossos estádios de futebol.

Num final de tarde, passando em frente ao teatro, notei que havia um grupo com um guia que apontava para as colunas parecendo descrever o local. Minha curiosidade me levou a me aproximar. Se tivesse sorte o bastante, o guia estaria falando inglês ou no mínimo espanhol e assim entenderia o que estava sendo dito. Era italiano. Mesmo assim achei que valeria a pena investir. Fui seguindo o grupo e quase sem querer, como todo bom penetra, acabei entrando. Era um pequeno hall, talvez não fosse a entrada principal. Apesar de já estar satisfeito por ter dado uma espiada, me distraí olhando pra cima e acabei me afastando do grupo.

No mesmo instante em que uns seguranças brucutus vinham em minha direção, já soltando o brado retumbante da delicadeza que lhes é peculiar, uma moça linda, com um vestido preto deslumbrante, e com uma elegância contrastante com a dos seguranças, me pegou pelo braço e me levou para onde estava o grupo de italianos. Ela me disse algo em italiano e eu só pude repetir: Grazie! Grazie! Era tudo que tinha aprendido nas novelas brasileiras.

Ela logo desapareceu e quando olhei ao meu redor tive a certeza de que não deveria estar ali. Estavam servindo um coquetel com canapés de caviar e vinho branco, tudo muito requintado para um simples professor de inglês. Antes que pudesse procurar pela saída, já estava com uma taça na mão. Logo a moça retornou, sentou-se ao piano e iniciou um pequeno concerto que durou uns vinte minutos. Assim que ela parou de tocar, todos se aproximaram e brindaram-na, parabenizando-a pela bela música.

Não havia momento mais propício para, sorrateira e estrategicamente, sair de cena. Cruzei a sala, passei pelo pequeno hall na entrada e ganhei as frias ruas da cidade.

Até hoje não sei quem eram e o que celebravam. Talvez o avanço das obras dentro do teatro. Mas serei sempre grato à pianista russa que me proporcionou uma tarde-noite inesquecível!

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