domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Cavaleiro Medieval

Quando ouvia falar em cavaleiros e naquelas intermináveis batalhas Medievais, a primeira lembrança que vinha a minha mente não poderia ser outra senão o invencível Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. As famosas novelas de cavalaria que estão presentes em qualquer estudo que se faça da literatura inglesa.

Por conta das Cruzadas, a história ainda retrata passagens por países como a Espanha, França e quase toda a Europa Central.

Porém nunca tinha ouvido falar que essa tradição também havia chegado às terras distantes da Rússia, até encontrar um verdadeiro Cavaleiro Medieval Russo: O Gennady.

Era horário de almoço e eu estava sentado numa cafeteria muito popular em Moscou chamada Coffee House, quando um senhor muito alto e magro, com barba e cabelos compridos se aproximou e pediu para se sentar, uma vez que não havia nenhuma outra mesa disponível. Muito educadamente ofereci um lugar e antes mesmo que ele pusesse sua bandeja sobre a mesa, começamos a conversar em inglês, pois ele notara que se tratava de um estrangeiro.

Estranhei pois tinha certeza que tinha dito: "Sente-se por favor" em alto e bom russo, quase como um nativo. Talvez meus olhos castanhos tenham me entregado dessa vez.

A conversa começou a ficar muito interessante quando ele me disse que além de professor de História na Universidade de Moscou, ele ainda era responsável por um centro de tradições medievais que trabalha para manter viva a magia das batalhas dos bravos cavaleiros da Idade Média.

O nome mais expressivo dessa época na Rússia foi sem dúvida Alexsander Nevsky, o grande Príncipe de Vladimir, que com enorme coragem derrotou invasores Suecos, Germânicos e Mulçumanos além de ser responsável por vários tratados que expandiram o território Russo em todos os pontos cardeais.

Fiquei tão empolgado com as estórias contadas pelo meu novo amigo "medieval" que resolvi aceitar o convite que me fez para conhecer o centro de tradições que ele dirigia.

Cheguei por lá numa tarde de sexta-feira, justamente quando os cavaleiros medievais do presente se preparavam para uma espécie de treino semanal. Todos ali levavam tudo muito a sério. As roupas eram cuidadosamente confeccionadas com base na história e tinham todos os detalhes que hoje em dia só vemos em filmes.

Em poucos minutos eles tiravam os pontos de ferrugem, davam brilho e vestiam toda aquela parafernália que incluia as roupas, as botas, o capacete e as armas, que apesar de serem feitas de metal, não tinham corte e as pontas não eram afiadas, pois o objetivo era apenas demonstrar e não ferir ninguém.

Tudo pronto. A turma ia para a praça em frente ao prédio e as batalhas começavam. Dois cavaleiros lutavam até que um caísse ao solo, o que representava que estivesse morto.

O Gennady ainda me mostrou fotos e vídeos feitos em competições das quais seu grupo havia participado em vários países da Europa incluindo a Alemanha e a Ucrânia. Essas competições internacionais são levadas tão a sério que os cenários escolhidos quase sempre é um castelo, para fazer com que tudo pareça ainda mais real.

Não satisfeito em apenas assistir aos combates naquela tarde/noite, fui mais ousado em aceitar participar na sexta-feira seguinte de uma pequena apresentação que eles fariam naquele mesmo local. Era minha chance de voltar no tempo e viver pelo menos por alguns minutos numa época de heroísmo e glória que sempre havia me despertado o interesse.

Cheguei bem mais cedo para que o Gennady me desse as devidas instruções de como lutar, manejar a espada e o escudo, o que confesso não é nada fácil, principalmente depois que se tem quilos e mais quilos de roupas de aço sobre o corpo. Na verdade ao invés de ouvir atentamente aos ensinamentos do mestre, ficava imaginando a dor no pescoço que teria mais tarde por tentar equilibrar aquele capacete que me manteria vivo, caso o meu oponente me acertasse na cabeça.

Pronto ou não, não tinha mais tempo. Era hora de partir para uma luta de vida ou morte. Entrei no campo de batalha e lá estava meu inimigo. Sabia das minhas limitações, mas fiquei mais confiante ao notar que ele não era assim tão maior que eu. O início parecia mais uma dança do que uma luta. Os dois cavaleiros se estudavam, trocavam alguns poucos golpes de espada somente para medir forças. Mas para a galera que se juntava para assistir ao combate, o trincar das espadas se chocando no ar e o estrondo causado por uma defesa com o escudo, eram comemorados como um gol num clássico de futebol.

Um minuto havia se passado, mas para um cavaleiro iniciante aquilo era uma eternidade. Minhas pernas já não aguentavam todo aquele peso. Levantar a espada custava muito. Assim decidi que era matar ou morrer. Parti pra cima com tudo. Ergui a espada perpendicularmente e a deixei cair na direção da cabeça do meu inimigo.

A defesa foi imediata. Sua espada veio cortando os ares tão violentamente que arremessou a minha a metros de distância, se perdendo na camada de neve espessa. E na mesma fração de segundo em que assistia minha arma voar ao longe, senti o peso da espada dele estourar no meu peito...

Tinha sido uma defesa em cima e um golpe embaixo. Só um cavaleiro experiente poderia ter reagido com tamanha destreza e ao mesmo tempo mandar seu oponente ao solo quase que concomitantemente.

Fiquei estatelado no chão por alguns segundos. Nem ao menos sentia a neve fria envolta ao meu corpo.

Quando finalmente abri os olhos vi que muitas pessoas me rodeavam. Muitos olhares de apreensão e preocupação. Outros apenas curiosos.

Fiz um sinal de positivo para o Gennady que aliviado, imediatamente fez com que a multidão se dispersasse.

Mas ainda levaria o golpe final. Ao tentar me levantar avistei meu inimigo, que já se retirava do campo de batalha, levando consigo os louros da vitória. Já sem o capacete reconheci a Svetlana, filha do Gennady, com seus longos cabelos ruivos a rolar no vento e seus olhos azuis que pareciam iluminar aquela noite escura.

Não tive outra sorte. Morri logo na minha primeira batalha. Era o fim de mais um bravo Cavaleiro Medieval.



























sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

As Babushkas Sacoleiras

As Babushkas Sacoleiras

A palavra "Babushka" significa vovó ou vovozinha. Elas são um símbolo da cultura russa. Figurinhas fáceis no cenário da grande capital e também das cidades menores. São elas que preparam as mais deliciosas receitas que passam de geração para geração, perpetuando assim a culinária local. Todos por lá adoram as famosas "cotletas", muito parecidas com as nossas almondegas, os "peroshkis" que são um tipo de pastel assado normalmente recheado com repolho temperado, o borshe que é a mais tradicional sopa russa feita com beterraba, as saborosas "blini" que nada mais são do que panquecas e tantas outras delícias que só as vovós sabem fazer.


Porém, uma característica das Basbushkas que muito me chamou a atenção foi a disposição com que elas cruzam a cidade em todas as direções a qualquer hora do dia. Faça chuva ou caia neve, lá estão as queridas velhinhas pra lá e pra cá com suas sacolas de rodinhas.


- Sacolas de rodinhas? Como assim?


Exatamente. As Babushkas na maioria das vezes carregam um tipo de sacola que parece ter surgido do cruzamento dos nossos folclóricos carrinhos de feira com aquelas sacolas coloridas que trazem muamba do Paraguai. São sacolas sobre rodas.


Até aqui nada que desabone as simpáticas senhoras.


O problema é que elas entram nos ônibus e no metrô puxando as tais sacolas depois de ter rodado pelas ruas e calçadas lamacentas, com aquela mistura de neve derretida pelo sal com poluição e fuligem dos carros, além da própria terra dos parques.


Agora vamos imaginar a cena:


Estou tentando me equilibrar no ônibus lotado, me segurando na barra presa ao teto, quando de repente uma Babushka passa por detrás de mim, puxando sua sacola com aquelas rodas imundas, que, ao passar, deixam dois riscos nas minhas calças entre a panturrilha (ou batata da perna, como queiram) e o calcanhar.


Elas não perdoam ninguém. Pode ser calças jeans, de sarja ou veludo cotelê. Deixam sua marca registrada assim como o Zorro adorava fazer com a farda do Sargento Garcia.


E mesmo quando conseguia escapar do ataque desleal no ônibus, elas me pegavam no metrô.


O pior era a gozação dos alunos na escola. Sempre que ficava de costas pra escrever na lousa, um engraçadinho emendava:


- Babushkas strike again! (As Babushkas atacam de novo!)


Mas por que precisavam daquelas sacolas melequentas? O que carregavam ali?


Não dava pra ver. Estavam sempre com o zíper fechado.


Cansado de chegar ao trabalho com aquele adorno nada comum nas pernas, resolvi investigar.


Certo dia enquanto esperava o ônibus, uma, duas, três Babushkas se juntaram no ponto, conversaram e quando o ônibus chegou, duas entraram enquanto a terceira que ficou no ponto, continuava a deferir frases incompreensíveis ao meu ouvido ainda nada familiarizado com aquela língua estranha.


Subi no coletivo e tratei de ficar de olho. As duas desceram na estação Yugo-Zapadnaya do metrô, passaram pela roleta com seus bilhetes de idoso e se posicionaram estrategicamente no meio da plataforma. E lá estava eu como quem não quer nada, dando uma de Sherlock Holmes tupiniquim na terra dos Czares.


Durante a viagem de metrô, meus pensamentos se multiplicavam:
Para onde vão afinal? O que levam? O que vão buscar?


É elementar, meu caro Watson!


As Babushkas vivem com pouquíssimo dinheiro de suas aposentadorias, por isso deveriam estar fazendo algo ilícito pra conseguir um trocado extra.


Claro!


Tráfico de drogas ou de órgãos! E aquela terceira que tinha ficado no ponto de ônibus seria uma espécie de chefe da gangue, somente passando as ordens do dia.


Que horror! Pobres velhinhas.


Talvez levassem documentos e encomendas de uma empresa a outra, uma vez que não há motoboys em Moscou. Elas seriam então as office-babushkas.


Por sorte elas foram até a estação Kropotkinskaya, a mesma onde eu teria que descer. Ainda tinha tempo antes da aula e assim as segui por alguns quarteirões.


Logo surgiram outras Babushkas. E mais. E mais pelo caminho, dos dois lados da rua. Cada uma puxando sua sacola, riscando as calçadas em meio à lama.


Vinham de todas as partes até que finalmente chegamos a um largo por detrás dos prédios, onde havia um pequeno mercado de rua.


Pequenos produtores rurais se juntavam ali pra vender seus produtos. Verduras, legumes, mel, algumas frutas e artesanato. Tudo a preço de banana, ou melhor, de chernika (uma frutinha do campo que a propósito, dá uma ótima geléia pra rechear as blinis. Depois é só cobrir com smetana que é um creme de leite um pouco mais espesso do que o que temos aqui).


Fim do mistério. As Basbushkas cruzam a cidade em busca desses mercados para assim poder comprar produtos fresquinhos direto do campo, muito mais em conta do que nos supermercados e garantir a cesta de ingredientes indispensáveis para suas receitas apetitosas.


Só que nessa estória toda, quem paga o alto preço são os passageiros dos ônibus e metrô com suas calças indefesas.