sábado, 29 de setembro de 2012

A Garagem da Vizinha



















A Garagem da Vizinha

A grande maioria dos prédios residenciais de Moscou foi construída no pós-guerra, durante o período soviético e fazia parte do plano de desenvolvimento da cidade. São inúmeros edifícios enfileirados com um complexo sistema de identificação que complica a vida dos visitantes não acostumados com esse sistema. Porém, a maior dificuldade dos moradores é não possuir garagens para seus automóveis, que são estacionados indiscriminadamente em frente aos respectivos apartamentos.


Alguns proprietários mais afortunados, até pouco tempo atrás, possuíam containers que se espalhavam pelos parques entre os prédios, chegando a tomar o espaço que se destinava ao lazer dos moradores, principalmente das crianças e jovens. E era nesses containers que eles guardavam seus possantes. Quem não possuía um container, se obrigava a deixar o veículo na rua, ao relento.

Num determinado momento, por coincidência, justamente no período em que eu estava morando lá, a prefeitura determinou que os containers, que enfeiavam a paisagem, fossem proibidos. Era o fim do privilégio de uns em detrimento de outros. Mas como resolver a questão das garagens?

Ficou determinado que os condôminos deveriam se reunir e juntos construiriam garagens padronizadas em frente aos prédios. Essas garagens por sua vez pareciam gaiolas com telhado, todas do mesmo tamanho. E assim, logo as garagens-gaiolas verdes se espalharam pelo bairro, menos na minha rua.

Os meus vizinhos fizeram várias reuniões noturnas para calcular o espaço e definir quantas garagens seriam construídas. Depois de tudo planejado, cálculo de despesas elaborado e desenho feito no computador pelo Alexander, que era engenheiro e designer de móveis, apareceu a Irina na estória. Começou a discussão. Ela não tinha carro e por isso não tinha sido contada no planejamento.

- Injustiça! Ela esbravejava. Todos que possuem apartamento nesta rua tem direito a uma vaga, independente de ter carro ou não.

Ela estava decidida a levar a briga até o final. E ameaçou fazer uma reclamação formal na prefeitura se seu nome não constasse da lista de novos proprietários de garagens-gaiolas daquele bloco da Rua Bakinski Komissarov, próxima à estação Yugo-Zapadnaya do metrô.

Quando fui perguntar ao Alexander e ao Sergey o motivo daquele “barraco” na frente do prédio que ocorrera na noite anterior, eles até tentaram me convencer de que a Irina se tratava de uma solteirona maluca e recalcada, e que por não ter carro, não precisaria de uma vaga. Mas com todo o cuidado que a diplomacia internacional recomenda numa situação como essa, dei a eles a minha opinião de estrangeiro que estava analisando o problema da forma mais imparcial possível:

- Pela lógica, o número de garagens deveria ser igual ao número de apartamentos, e não ao de carros. Ou vocês esqueceram as raízes socialistas que conduziram este país até aqui?

Eles finalmente concordaram comigo, e mais importante, com a Irina. Porém após mais cálculos, novos projetos e desenhos, muitas e muitas reuniões regadas a vodca com picles, todos chegaram à uma triste conclusão: se uma garagem fosse acrescentada ao projeto original, a construção completa ultrapassaria o limite do espaço e avançaria até a calçada, o que era proibido.

O prazo para finalização das obras estabelecido pela prefeitura venceu. Os moradores não conseguiram chegar a um acordo que beneficiasse a todos e assim os carros, dali em diante, passaram a ficar estacionados na rua, sem container, sem gaiola, sem telhado.

O verão se foi. O espetáculo do outono durou muito pouco. A Irina finalmente apareceu com um carro. Diziam uns que era presente do novo namorado. Da minha janela dava para ver o Lada 2107 branco que posava todo pomposo, coberto de neve nas manhãs geladas da grande capital Russa.

sábado, 1 de setembro de 2012

A Pianista e o Turista Italiano




Moscou respira música. E a música clássica se espalha pelos quatro cantos da cidade. Pequenos e grandes concertos tomam conta dos inúmeros espaços reservados para apresentações. E mesmo que não haja nenhum evento, vale a pena visitar esses locais nem que seja para apreciar a arquitetura.

É claro que o monumental Teatro Bolshoi é o mais famoso. A maior casa de ópera e berço do balé russo, onde tudo que reluz é ouro, é capaz de remeter os visitantes mais afortunados aos gloriosos tempos do luxo czarista.

Queria ver tudo isso de perto, mas o Bolshoi estava passando por uma extensa restauração e por isso estava fechado para visitação. Com certeza o governo gastou muito mais ali do que gastamos aqui para construir ou reformar nossos estádios de futebol.

Num final de tarde, passando em frente ao teatro, notei que havia um grupo com um guia que apontava para as colunas parecendo descrever o local. Minha curiosidade me levou a me aproximar. Se tivesse sorte o bastante, o guia estaria falando inglês ou no mínimo espanhol e assim entenderia o que estava sendo dito. Era italiano. Mesmo assim achei que valeria a pena investir. Fui seguindo o grupo e quase sem querer, como todo bom penetra, acabei entrando. Era um pequeno hall, talvez não fosse a entrada principal. Apesar de já estar satisfeito por ter dado uma espiada, me distraí olhando pra cima e acabei me afastando do grupo.

No mesmo instante em que uns seguranças brucutus vinham em minha direção, já soltando o brado retumbante da delicadeza que lhes é peculiar, uma moça linda, com um vestido preto deslumbrante, e com uma elegância contrastante com a dos seguranças, me pegou pelo braço e me levou para onde estava o grupo de italianos. Ela me disse algo em italiano e eu só pude repetir: Grazie! Grazie! Era tudo que tinha aprendido nas novelas brasileiras.

Ela logo desapareceu e quando olhei ao meu redor tive a certeza de que não deveria estar ali. Estavam servindo um coquetel com canapés de caviar e vinho branco, tudo muito requintado para um simples professor de inglês. Antes que pudesse procurar pela saída, já estava com uma taça na mão. Logo a moça retornou, sentou-se ao piano e iniciou um pequeno concerto que durou uns vinte minutos. Assim que ela parou de tocar, todos se aproximaram e brindaram-na, parabenizando-a pela bela música.

Não havia momento mais propício para, sorrateira e estrategicamente, sair de cena. Cruzei a sala, passei pelo pequeno hall na entrada e ganhei as frias ruas da cidade.

Até hoje não sei quem eram e o que celebravam. Talvez o avanço das obras dentro do teatro. Mas serei sempre grato à pianista russa que me proporcionou uma tarde-noite inesquecível!