domingo, 22 de agosto de 2010

Chuva de Folhas Amarelas

O verão vai se aproximando do fim. Aos poucos as roupas leves vão dando lugar a malhas e casacos. A atmosfera que antes era de muita alegria, sorrisos largos pelas ruas e parques começa a ganhar um ar mais triste. Os grupos de pessoas locais e turistas que circulavam ruidosamente pelos quatro cantos da grande capital russa vão diminuindo até se tornarem indivíduos apressados e silenciosos.

É interessante observar o quanto o clima influencia no comportamento das pessoas e na relação entre elas.

Mas, muito mais do que isso, o visual da cidade muda completamente como se fosse da noite para o dia. Até então, tudo estava verde e florido. Parques gigantescos com suas árvores centenárias exibindo diversas tonalidades em suas copas e os mais delicados canteiros espalhados pelos jardins com suas flores coloridas vão rapidamente desaparecendo. As flores são cuidadosamente retiradas e levadas para uma estufa onde permanecerão até o fim do inverno, quando serão novamente plantadas em seus devidos lugares.

Enquanto isso, as folhas antes verdinhas, vão se tornando amareladas ou alaranjadas, apresentando um lindo espetáculo de cores que se espalha por entre prédios, ruas e avenidas.

Essa transformação ocorre com muita rapidez. Em poucas semanas vão restar pouquíssimas folhas verdes. E antes mesmo de ficar tudo amarelado, as folhas começam a cair. No início bem devagar. Mas logo esse processo se transforma em uma verdadeira chuva de folhas amarelas que cobrem o solo e formam um maravilhoso tapete natural. É outono no hemisfério norte.
E aí começa um problema para os pedestres que ao sair de seus prédios se deparam com calçadas escorregadias pois as folhas acumulam umidade. Além de que ainda podem entupir os bueiros. Então entram em cena os garis.
Fiquei observando o árduo trabalho da gari da minha vizinhança. Ela começava muito cedo a varrer a rua de uma ponta à outra, recolhendo as folhas que seriam levadas para que se transformassem em adubo. Sua tarefa não tinha fim. Quando eu saía pela manhã, ela estava numa esquina, começando o batente. Quando eu voltava na hora do almoço, ela já tinha chegado à outra esquina, porém precisaria voltar ao começo, pois a chuva de folhas amarelas não parava e todo o caminho percorrido estava novamente coberto por elas. Haja paciência!
Eu olhava pela janela do apartamento e lá estava ela no meio do caminho. Fazia isso com muita dedicação pois muitas pessoas que ali moravam precisavam do resultado de seu trabalho.
Fim de mais um dia. A noite havia caído e era preciso retomar a labuta muito cedo no dia seguinte pois o vento da noite iria derrubar ainda mais folhas.
E assim se seguia por algumas semanas.
O frio se intensificava, as temperaturas despencavam e logo não se via sequer uma árvore com folhas. Só sobraram galhos secos. Pareciam sem vida. O inverno estava se aproximando.
Os casacos pelas ruas eram ainda mais pesados. Gorros e cachecóis coloridos desfilavam como se quisessem trazer um pouco mais de vida a aquele cenário um tanto quanto cinzento. Mas eles não conseguiam disfarçar os passos apressados de quem não quer ficar muito tempo ao relento.
Pelo menos para a gari um alívio. Não restam folhas a cair. Tudo já foi recolhido. Trabalho executado com sucesso. Mas o tempo não pára. O ciclo da vida continua. Começa a nevar.
Logo tudo que era verde e ficou amarelo estará coberto de branco. Lindo! Sábia natureza!
Opa! Quem vai retirar toda aquela neve da frente da porta dos prédios e das calçadas?