
O Lada Azul
No início dos Anos 1990, quando um certo presidente do Brasil finalmente abriu as portas e os portos do país às importações, os primeiros automóveis estrangeiros a desembarcar em nosso território foram os russos da Lada.
Com certeza todos se lembram daqueles simpáticos carrinhos que foram despejados aos montes em nossas ruas e que vinham apenas em duas cores: vermelha e branca. Sempre suspeitei de que havia uma mensagem subliminar nessa combinação de cores. Os russos não dão ponto sem nó.
Muitos anos se passaram e poucos resistiram à competição desleal imposta pela chegada dos alemães, japoneses, coreanos e franceses entre outros, que com tecnologia de ponta e computadores de bordo, cairam de vez no gosto dos motoristas brasileiros. Não é preciso dizer que os russos ficaram obsoletos e rapidamente desapareceram de nossas cidades, muito mais rápido até do que a queda do muro de Berlim, por assim dizer.
Mas em Moscou a estória é bem diferente. Assim que desembarquei por lá, notei uma quantidade imensa de Ladas nas ruas da grande capital russa, o que me trouxe um certo saudosismo e recordei com saudades dos bons tempos dos idos de 1990.
Porém algo nesse cenário me intrigava, como quase tudo é intrigante na gigante Rússia. Como nossos camaradas poderiam ter conservado tão bem todos carros antigos? Eles pareciam novinhos em folha, não podiam ter sido fabricados há tanto tempo.
E não eram. Logo pude constatar que a maioria dos Ladas que eu via nas ruas tinha sido fabricada nos últimos anos. A verdade é que eles ainda fabricam aqueles carros com o mesmo design dos que vieram para o Brasil muitos anos atrás. Por isso tive a impressão de que se tratava de carros antigos bem conservados.
O meu vizinho Sergey tinha um. Era um Lada Sputinik azul marinho fabricado em 2007. Lindão! Sempre que o via estacionado em frente ao nosso prédio, parava para apreciá-lo. Ficava pensando que se pudesse dirigir um daqueles pelas ruas de Moscou, me sentiria um pouco mais moscovita. É claro que com a chegada dos importados por lá, o Lada se tornou muito mais um símbolo nacional do que o carro favorito das famílias russas.
Um certo dia, enquanto olhava o interior do carro através dos vidros, o Sergey surgiu do nada e sem que eu pudesse notar se aproximou e deu um tapinha nas minhas costas - tapinha é modo de dizer, quase engoli sem mastigar o último pedaço do peroshki (uma espécie de pastel assado muito popular) que estava comendo - e me perguntou em russo é claro:
- Quer comprar?
Em seguida riu muito, acho que sabia que eu não tinha entendido nada pois respondi que sim. Achei que a pergunta tinha sido algo como: Bonito né?
Ainda bem que depois disso ele nunca mais tocou no assunto. Aliás, segundo as más línguas e algumas fofoqueiras de plantão, o Sergey seria um fervoroso membro da máfia russa, coisa que nunca quis averiguar.
Melhor nem ficar sabendo. A verdade é que ele era mesmo muito reservado, não o via conversando com ninguém. Nem mesmo durante as reuniões de condomínio na época que era preciso definir a situação das garagens. Mas isso é uma outra estória.
Meu próximo encontro casual com o Sergey seria ainda mais inusitado.
Numa tarde gelada de inverno, daquelas que a gente fica se perguntando porque é preciso sair de casa, esbarrei com ele na porta do supermercado. Assim que me viu foi logo me passando as sacolas que trazia e um tanto quanto apressado disse:
- Moya machina tam. (Meu carro está ali.)
Para bom entendedor meia palavra basta, mas aquilo para o Sergey tinha sido um parágrafo inteiro.
Em seguida ele voltou desesperadamente para o interior da loja. Pela expressão de preocupação em sua face, deduzi que pudesse ter perdido alguma coisa, a carteira talvez.
Nas sacolas muito pesadas, diga-se de passagem, havia de um tudo. Queijo, salame, torradas, latas e mais latas de azeitonas e é claro muitas garrafas de vodca.
Tratei de procurar o Lada azul e logo o avistei do outro lado da rua, bem em frente ao supermercado. Não era uma rua movimentada, apenas um acesso estreito à loja. Fui direto ao porta-malas, apertei o botão e "ploc", a tampa se abriu como uma catapulta para atirar pedras em guerras medievais. Dentro havia de tudo um pouco: o estepe que parecia estar murcho, caixa de ferramentas, um taco de hoquei, duas garrafas de kvas (bebida típica parecida com cerveja sem alcool) já pela metade, uma jaqueta de couro muito mal cheirosa entre outros badulaques. Ajeitei um espaço e coloquei cuidadosamente as sacolas de modo que as garrafas não corressem nenhum um risco de se quebrarem no caminho. Bati a porta que não se fechou. Tentei novamente sem sucesso. Mas na terceira vez não tive dó do meu carrinho favorito e finalmente ouvi o "clique" da fechadura macia.
Agora estava pronto para as minhas compras. Mas não antes de encontrar o Sergey novamente na saída e agora ele parecia muito mais tranquilo. Vi que trazia a carteira em uma das mãos. Ele me deu um aperto de mão típico russo, aquele que quase fratura todos os ossos e a gente fica com a sensaçao de que não sobrou dedo nenhum nem pra jogar par ou ímpar.
- Agora está tudo bem, ele disse.
Fiquei feliz em poder ter ajudado meu vizinho. Se ele fosse mesmo da máfia, nessas alturas eu já teria ganho uns pontos com os camaradas.
Ele ainda entrou no banco ao lado do supermercado e eu fui direto para a seção de frutas.
Mas o pior ainda estava por vir. Parece que era mesmo uma tarde para se arrepender de ter saído de casa.
Ao sair da loja notei que o carro ainda estava lá. Estranhei pois tinha ficado lá dentro um bom tempo. Antes que eu pudesse pensar no que teria acontecido, vi um casal se aproximar do carro, entrar e sair acelerando, jogando para os lados aquela neve escura que já se misturava com a fuligem e a poluição.
Nesse momento pensei: Agora a coisa ficou russa. Bateu aquele frio na barriga, as pernar começaram a tremer e o coração só não saiu pela boca porque sabia que seria congelado. Não tinha mais conserto. Precisava correr para casa. Ou talvez fosse melhor nem aparecer por lá por uns dias. O Sergey ia querem me matar quando abrisse o porta-malas e não encontrasse suas sacolas. Nessas alturas já tinha descoberto. Como eu iria explicar que as tinha colocado no carro errado? Nenhum russo gosta de perder suas garrafas de vodca. Ainda mais um mafioso. Que estúpido! Por que fui colocar as sacolas no primeiro Lada azul que vi? Deveria haver dezenas deles só no nosso quarteirão.
O caminho nem era tão longo assim, mas naquela tarde parecia a estrada de ferro transiberiana. Pode levar meses para cruzar esses país imenso de trem. Queria correr, mas a espessa camada de gelo que se formava nas calçadas as tornavam muito escorregadias. Já tinha visto muito gente cair.
Finalmente cheguei. E lá estava o Lada azul em frente ao prédio, no mesmo lugar de sempre. Não quis olhar. Traidor! Pensei. Senti ódio daquele carrinho. Não tinha mais nenhuma simpatia por ele. Se queria mesmo me sentir um moscovita de verdade, de agora em diante seria melhor dirigir um Volga, que é uma outra marca de carros russos, muito mais modernos. E talvez nem um pouco traiçoeiros.
Entrei tropeçando no elevador e lembrei que tinha uma garrafa de vodca em casa. Nem sabia ao certo se era uma marca de qualidade. Tinha ganho dos alunos de uma empresa onde trabalhava. Achei que seria uma boa idéia levar para o Sergey como um pedido de desculpas. É claro que o restante: o queijo, o salame, as azeitonas, ficariam na saudade.
Deixei minhas compras em cima da mesa, apanhei a garrafa de vodca e desci um andar até o apartamento dele. Ainda não sabia direito como iria explicar. Ele não falava inglês, apesar de entender algumas palavras. Parei em frente à porta, respirei fundo e toquei a campainha. Podia ouvir a música que vinha lá de dentro e até acompanhei a melodia.
Até que a porta se abriu, senti aquele nó na garganta e imediatamente as palavras sumiram da minha boca seca.
Não era o Sergey. Era o mesmo casal que tinha visto há pouco em frente ao supermercado. Fiquei confuso. Não sabia o que dizer. Não conseguia lembrar como se pergunta: "O Sergey está?" em russo.
Felizmente, antes que a situação ficasse ainda mais embaraçosa, avistei a Tanya, namorada do Sergey, e o próprio que vinham da cozinha com canapés feitos de queijo, salame e azeitonas.
Eles sorriram, me convidaram pra entrar e agradeceram pela vodca que eu trazia. É claro que não estavam me esperando, mas me receberam muito bem e me apresentaram aos seus amigos Vladimir e Natasha.
Mais tarde, depois de uns dois ou três copos e uns pickles de pepino que segundo eles é o melhor acompanhamento para a vodca, e conversando com a Natasha que falava inglês fluentemente, vim a saber que todos estavam juntos naquela tarde no supermercado, mas que para ganhar tempo haviam se separado naquele momento em que encontrei o Sergey.
Pra ser sincero, nessas alturas já tinha esquecido completamente do acontecido. Além de que, russos e brasileiros são muito parecidos quando se sentam com amigos ao redor de um mesa, com suas comidas e bebidas típicas. A alegria, a descontração e o bom humor tomam conta do ambiente. Isso é, o bom humor ficou por conta deles pois não conseguia entender o sentido das piadas que contavam, nem com todo o esforço da Natasha para traduzi-las.
Na manhã seguinte, como de costume, ao levantar fui até a janela da cozinha pra conferir a temperatura no termômetro que ficava fixo do lado de fora. Vinte graus abaixo de zero! E lá estava o Lada azul completamente coberto pela neve branca que caíra durante a noite.
- Bom dia, camaradinha! Murmurei.