Moscou é uma cidade de muitos prédios. Não há uma casa sequer. Todos moram em apartamentos de era soviética. Quem quer ter uma casa precisa se mudar para as cidades mais afastadas e dirigir por horas e horas todos os dias pra chegar ao trabalho. Nada diferente do que temos aqui.O lado bom é que tem muito verde por lá. Muitos parques com árvores que se espalham por todo canto. Um convite para uma caminhada durante o horário de almoço, um passeio garantido numa tarde de sol no fim de semana e muita diversão para a garotada que toma conta desses lugares tanto no inverno quanto no verão. Eles vão patinar, esquiar e até jogar futebol, que disputa com o hóquei o primeiro lugar no coração dos esportistas.
Mas o que dizer desses parques quando cai a noite? Como em qualquer outro lugar do mundo, se transformam em lugares escuros e assombrosos que devem ser evitados por pessoas com um mínimo de prudência.
Quem nunca ouviu falar em maníaco do parque por aqui? Em Moscou não é diferente. Muitas pessoas por lá afirmam saber de casos horripilantes de ataques de maníacos, ladrões e batedores de carteiras em geral. Não é necessário dizer que as moças indefesas são as maiores vítimas desses crimes. Eu, por exemplo, não tive problema nenhum desse tipo enquanto estive por lá, embora sempre ouvisse as pessoas relatar casos dessa natureza.
Porém, um certo dia, durante uma aula, o assunto era criminalidade nas grandes cidades e muitos alunos contaram casos que haviam se tornado primeira página nos jornais locais.
O que mais me chamou a atenção foi de uma garota chamada Olga, que após um dia cansativo de trabalho, em plena crise financeira mundial, tinha se desentendido com o chefe na empresa onde trabalhava e estava muito preocupada com a possibilidade de perder o emprego. Nesse mesmo dia ela tinha marcado um encontro com uma amiga que não via já há algum tempo e achava que seria uma boa oportunidade para desabafar com ela seus problemas pessoais.
O encontro daquele final de tarde seria num café que ficava do outro lado de um parque. Ela tinha a opção de caminhar ao redor do parque, mas isso faria da caminhada um tanto quanto mais longa e cansativa. Por isso decidiu enfrentar o caminho mais curto. Já começava a anoitecer e a lembrança de estórias de ataques a mulheres indefesas nesses locais tomavam conta de sua imaginação. Não havia uma só alma viva naquele lugar, o que nunca se sabe se é uma vantagem ou um sinal de perigo maior. A todo e qualquer barulho de pássaros ou esquilos que ali habitavam, seu coração acelerava um pouco mais.
Aos poucos foi ganhando confiança, pois já estava bem próxima da saída e pensava que dali pra frente nada mais podia acontecer. Mas ela estava enganada. Algo estranho se moveu à sua frente. Não podia identificar. Sabia que não deveria ser um animal pequeno pois tinha visto um vulto alto, algo com uma cabeça enorme. Nesse instante ela já não conseguia se decidir entre continuar no seu caminho ou voltar para o lado contrário. As pernas amoleceram e aquele arrepio por baixo da pele fazia cada pelo do corpo se levantar. Antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, aquela criatura de cabeça gigante estava parada na sua frente, estendendo o braço com um panfleto.
Era o homem-cogumelo. O que é isso? Bem o homem-cogumelo nada mais era do que um homem vestido de cogumelo, entregando panfletos do restaurante para promover a saborosa sopa de cogumelos da casa. Aliás, sopa esta que é um prato muito presente na mesa das famílias russas e diga-se de passagem, é uma delícia!
Por quase um segundo ela teve ódio daquele idiota que a assustara, mas logo pensou que ele estava apenas fazendo seu trabalho e admitiu que até ficara feliz em vê-lo. Numa situação como essa, é melhor dar de cara com o homem-cogumelo do que com o lobisomem ou o maníaco do parque.
No restaurante a sua amiga já esperava e elas puderam enfim colocar a conversa em dia. É claro que tiveram tempo pra se divertir com a estória do homem-cogumelo. Riram muito.
Mas o tempo passou depressa e chegava a hora de voltar pra casa. Elas sabiam que o dia seguinte seria mais um difícil dia de trabalho naqueles tempos de crise.
Olga achava que elas deveriam tomar um taxi, mas a amiga não concordou, pois as duas iriam em direções diferentes e então sugeriu que a melhor opção seria atravessar o parque novamente para tomar a “marshrutka”, as famosas vans que integram o sistema de transporte por lá também.
- Atravessar o parque de novo? Olga não tinha certeza de que seria uma boa idéia. Mas sua amiga a acalmou fazendo piada dessas crendices populares:
- Por que não? Não diga que está com medo do homem-cogumelo? Quem sabe não haja um príncipe encantado por baixo daquela roupa de cogumelo gigante?
As duas amigas riram muito e entraram no parque sem se preocupar com o risco que estavam correndo, afinal nada de mal tinha acontecido.
A noite estava muito gelada e elas andavam abraçadas pra amenizar o frio.
A amiga continua falando para espantar o medo:
- Parece que o inverno está se aproximando e logo teremos a primeira...Espere um pouco! Minha bolsa!
- O quê? Ficou no restaurante! Vamos ter que voltar.
- Desculpe-me, amiga!
- Tudo bem, concordou Olga. Afinal não podiam se separar ali. Era melhor que ficassem juntas.
E assim voltaram em direção ao restaurante. Mas agora as risadas davam lugar a um medo estranho. Por que se sentiam assim? Já tinham feito esse caminho antes. Será que seria abusar demais da sorte? Não havia outro jeito. Todos os documentos, cartões e dinheiro estavam na bolsa. Será que ainda encontraria o restaurante aberto?
O silêncio tomava conta do caminho. O único som que as acompanhava era de seus próprios passos sobre as folhas molhadas espalhadas pelo chão, ainda um sinal de que o outono há pouco tinha passado por ali. Uma névoa espessa dava ao cenário um ar ainda mais assustador, perfeito para os criadores de contos policiais ou de estórias de terror.
Finalmente, após intermináveis minutos de caminhada, puderam avistar a única luz acesa do outro lado da rua, já fora do parque. Sabiam que assim que pisassem na rua estariam a salvo.
Mas nem sempre as coisas acontecem como imaginamos. Um vulto surge por de trás de uma árvore e as duas gritaram desesperadamente por socorro. Tinham certeza que dessa vez não era o homem-cogumelo, pois não tinha aquela cabeça enorme por causa da fantasia. Era a figura de um homem. Tinha uma ferramenta nas mãos, apoiada no ombro, uma enxada ou uma foice, não dava pra identificar à distancia e no escuro. Pensaram em correr, mas o homem se movia rapidamente na direção das duas amigas. Não tinham para onde fugir.
Não havia mais o que fazer. As duas amigas se abraçaram, fecharam os olhos e gritaram por socorro. Um grito tão estridente que se ouvia a distancia. Neste momento só passavam pensamentos horríveis pela cabeça das duas. Por alguns segundos pensaram já estar mortas, pois não sentiam dor nenhuma. O que por outro lado poderia ser um bom sinal.
Foi aí então que praticamente ao mesmo tempo, resolveram abrir os olhos e parar de gritar, já que a essa altura não tinham mais energia. Ainda um pouco atordoadas pela própria gritaria, avistaram um homem estático muito assustado por sinal, parado a poucos metros a frente delas. Ele não poderia ter imaginado que causaria tamanho assombro às duas amigas.
Era o homem-cogumelo. Mas agora sem a fantasia e com uma vassoura em uma das mãos e a bolsa da amiga da Olga na outra. Finalmente ele teve chance de explicar que tinha visto as duas saindo do restaurante e já estava começando a limpar a casa após um longo dia de trabalho quando notou que uma delas havia deixado a bolsa sobre a cadeira.
As lágrimas não paravam de rolar nos rostos das duas amigas e o rapaz sem saber direito como reagir, simplesmente virou as costas e voltou para terminar seu trabalho no restaurante. As duas ainda com aquele tremor nas pernas que as faziam caminhar mais devagar, seguiram o caminho em direção ao outro lado do parque novamente. E enquanto alternavam períodos de silêncio com ataques de risos a amiga da Olga se virou e disse:
- Até que ele é bem simpático!