domingo, 22 de agosto de 2010

Chuva de Folhas Amarelas

O verão vai se aproximando do fim. Aos poucos as roupas leves vão dando lugar a malhas e casacos. A atmosfera que antes era de muita alegria, sorrisos largos pelas ruas e parques começa a ganhar um ar mais triste. Os grupos de pessoas locais e turistas que circulavam ruidosamente pelos quatro cantos da grande capital russa vão diminuindo até se tornarem indivíduos apressados e silenciosos.

É interessante observar o quanto o clima influencia no comportamento das pessoas e na relação entre elas.

Mas, muito mais do que isso, o visual da cidade muda completamente como se fosse da noite para o dia. Até então, tudo estava verde e florido. Parques gigantescos com suas árvores centenárias exibindo diversas tonalidades em suas copas e os mais delicados canteiros espalhados pelos jardins com suas flores coloridas vão rapidamente desaparecendo. As flores são cuidadosamente retiradas e levadas para uma estufa onde permanecerão até o fim do inverno, quando serão novamente plantadas em seus devidos lugares.

Enquanto isso, as folhas antes verdinhas, vão se tornando amareladas ou alaranjadas, apresentando um lindo espetáculo de cores que se espalha por entre prédios, ruas e avenidas.

Essa transformação ocorre com muita rapidez. Em poucas semanas vão restar pouquíssimas folhas verdes. E antes mesmo de ficar tudo amarelado, as folhas começam a cair. No início bem devagar. Mas logo esse processo se transforma em uma verdadeira chuva de folhas amarelas que cobrem o solo e formam um maravilhoso tapete natural. É outono no hemisfério norte.
E aí começa um problema para os pedestres que ao sair de seus prédios se deparam com calçadas escorregadias pois as folhas acumulam umidade. Além de que ainda podem entupir os bueiros. Então entram em cena os garis.
Fiquei observando o árduo trabalho da gari da minha vizinhança. Ela começava muito cedo a varrer a rua de uma ponta à outra, recolhendo as folhas que seriam levadas para que se transformassem em adubo. Sua tarefa não tinha fim. Quando eu saía pela manhã, ela estava numa esquina, começando o batente. Quando eu voltava na hora do almoço, ela já tinha chegado à outra esquina, porém precisaria voltar ao começo, pois a chuva de folhas amarelas não parava e todo o caminho percorrido estava novamente coberto por elas. Haja paciência!
Eu olhava pela janela do apartamento e lá estava ela no meio do caminho. Fazia isso com muita dedicação pois muitas pessoas que ali moravam precisavam do resultado de seu trabalho.
Fim de mais um dia. A noite havia caído e era preciso retomar a labuta muito cedo no dia seguinte pois o vento da noite iria derrubar ainda mais folhas.
E assim se seguia por algumas semanas.
O frio se intensificava, as temperaturas despencavam e logo não se via sequer uma árvore com folhas. Só sobraram galhos secos. Pareciam sem vida. O inverno estava se aproximando.
Os casacos pelas ruas eram ainda mais pesados. Gorros e cachecóis coloridos desfilavam como se quisessem trazer um pouco mais de vida a aquele cenário um tanto quanto cinzento. Mas eles não conseguiam disfarçar os passos apressados de quem não quer ficar muito tempo ao relento.
Pelo menos para a gari um alívio. Não restam folhas a cair. Tudo já foi recolhido. Trabalho executado com sucesso. Mas o tempo não pára. O ciclo da vida continua. Começa a nevar.
Logo tudo que era verde e ficou amarelo estará coberto de branco. Lindo! Sábia natureza!
Opa! Quem vai retirar toda aquela neve da frente da porta dos prédios e das calçadas?

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Cavaleiro Medieval

Quando ouvia falar em cavaleiros e naquelas intermináveis batalhas Medievais, a primeira lembrança que vinha a minha mente não poderia ser outra senão o invencível Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. As famosas novelas de cavalaria que estão presentes em qualquer estudo que se faça da literatura inglesa.

Por conta das Cruzadas, a história ainda retrata passagens por países como a Espanha, França e quase toda a Europa Central.

Porém nunca tinha ouvido falar que essa tradição também havia chegado às terras distantes da Rússia, até encontrar um verdadeiro Cavaleiro Medieval Russo: O Gennady.

Era horário de almoço e eu estava sentado numa cafeteria muito popular em Moscou chamada Coffee House, quando um senhor muito alto e magro, com barba e cabelos compridos se aproximou e pediu para se sentar, uma vez que não havia nenhuma outra mesa disponível. Muito educadamente ofereci um lugar e antes mesmo que ele pusesse sua bandeja sobre a mesa, começamos a conversar em inglês, pois ele notara que se tratava de um estrangeiro.

Estranhei pois tinha certeza que tinha dito: "Sente-se por favor" em alto e bom russo, quase como um nativo. Talvez meus olhos castanhos tenham me entregado dessa vez.

A conversa começou a ficar muito interessante quando ele me disse que além de professor de História na Universidade de Moscou, ele ainda era responsável por um centro de tradições medievais que trabalha para manter viva a magia das batalhas dos bravos cavaleiros da Idade Média.

O nome mais expressivo dessa época na Rússia foi sem dúvida Alexsander Nevsky, o grande Príncipe de Vladimir, que com enorme coragem derrotou invasores Suecos, Germânicos e Mulçumanos além de ser responsável por vários tratados que expandiram o território Russo em todos os pontos cardeais.

Fiquei tão empolgado com as estórias contadas pelo meu novo amigo "medieval" que resolvi aceitar o convite que me fez para conhecer o centro de tradições que ele dirigia.

Cheguei por lá numa tarde de sexta-feira, justamente quando os cavaleiros medievais do presente se preparavam para uma espécie de treino semanal. Todos ali levavam tudo muito a sério. As roupas eram cuidadosamente confeccionadas com base na história e tinham todos os detalhes que hoje em dia só vemos em filmes.

Em poucos minutos eles tiravam os pontos de ferrugem, davam brilho e vestiam toda aquela parafernália que incluia as roupas, as botas, o capacete e as armas, que apesar de serem feitas de metal, não tinham corte e as pontas não eram afiadas, pois o objetivo era apenas demonstrar e não ferir ninguém.

Tudo pronto. A turma ia para a praça em frente ao prédio e as batalhas começavam. Dois cavaleiros lutavam até que um caísse ao solo, o que representava que estivesse morto.

O Gennady ainda me mostrou fotos e vídeos feitos em competições das quais seu grupo havia participado em vários países da Europa incluindo a Alemanha e a Ucrânia. Essas competições internacionais são levadas tão a sério que os cenários escolhidos quase sempre é um castelo, para fazer com que tudo pareça ainda mais real.

Não satisfeito em apenas assistir aos combates naquela tarde/noite, fui mais ousado em aceitar participar na sexta-feira seguinte de uma pequena apresentação que eles fariam naquele mesmo local. Era minha chance de voltar no tempo e viver pelo menos por alguns minutos numa época de heroísmo e glória que sempre havia me despertado o interesse.

Cheguei bem mais cedo para que o Gennady me desse as devidas instruções de como lutar, manejar a espada e o escudo, o que confesso não é nada fácil, principalmente depois que se tem quilos e mais quilos de roupas de aço sobre o corpo. Na verdade ao invés de ouvir atentamente aos ensinamentos do mestre, ficava imaginando a dor no pescoço que teria mais tarde por tentar equilibrar aquele capacete que me manteria vivo, caso o meu oponente me acertasse na cabeça.

Pronto ou não, não tinha mais tempo. Era hora de partir para uma luta de vida ou morte. Entrei no campo de batalha e lá estava meu inimigo. Sabia das minhas limitações, mas fiquei mais confiante ao notar que ele não era assim tão maior que eu. O início parecia mais uma dança do que uma luta. Os dois cavaleiros se estudavam, trocavam alguns poucos golpes de espada somente para medir forças. Mas para a galera que se juntava para assistir ao combate, o trincar das espadas se chocando no ar e o estrondo causado por uma defesa com o escudo, eram comemorados como um gol num clássico de futebol.

Um minuto havia se passado, mas para um cavaleiro iniciante aquilo era uma eternidade. Minhas pernas já não aguentavam todo aquele peso. Levantar a espada custava muito. Assim decidi que era matar ou morrer. Parti pra cima com tudo. Ergui a espada perpendicularmente e a deixei cair na direção da cabeça do meu inimigo.

A defesa foi imediata. Sua espada veio cortando os ares tão violentamente que arremessou a minha a metros de distância, se perdendo na camada de neve espessa. E na mesma fração de segundo em que assistia minha arma voar ao longe, senti o peso da espada dele estourar no meu peito...

Tinha sido uma defesa em cima e um golpe embaixo. Só um cavaleiro experiente poderia ter reagido com tamanha destreza e ao mesmo tempo mandar seu oponente ao solo quase que concomitantemente.

Fiquei estatelado no chão por alguns segundos. Nem ao menos sentia a neve fria envolta ao meu corpo.

Quando finalmente abri os olhos vi que muitas pessoas me rodeavam. Muitos olhares de apreensão e preocupação. Outros apenas curiosos.

Fiz um sinal de positivo para o Gennady que aliviado, imediatamente fez com que a multidão se dispersasse.

Mas ainda levaria o golpe final. Ao tentar me levantar avistei meu inimigo, que já se retirava do campo de batalha, levando consigo os louros da vitória. Já sem o capacete reconheci a Svetlana, filha do Gennady, com seus longos cabelos ruivos a rolar no vento e seus olhos azuis que pareciam iluminar aquela noite escura.

Não tive outra sorte. Morri logo na minha primeira batalha. Era o fim de mais um bravo Cavaleiro Medieval.



























sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

As Babushkas Sacoleiras

As Babushkas Sacoleiras

A palavra "Babushka" significa vovó ou vovozinha. Elas são um símbolo da cultura russa. Figurinhas fáceis no cenário da grande capital e também das cidades menores. São elas que preparam as mais deliciosas receitas que passam de geração para geração, perpetuando assim a culinária local. Todos por lá adoram as famosas "cotletas", muito parecidas com as nossas almondegas, os "peroshkis" que são um tipo de pastel assado normalmente recheado com repolho temperado, o borshe que é a mais tradicional sopa russa feita com beterraba, as saborosas "blini" que nada mais são do que panquecas e tantas outras delícias que só as vovós sabem fazer.


Porém, uma característica das Basbushkas que muito me chamou a atenção foi a disposição com que elas cruzam a cidade em todas as direções a qualquer hora do dia. Faça chuva ou caia neve, lá estão as queridas velhinhas pra lá e pra cá com suas sacolas de rodinhas.


- Sacolas de rodinhas? Como assim?


Exatamente. As Babushkas na maioria das vezes carregam um tipo de sacola que parece ter surgido do cruzamento dos nossos folclóricos carrinhos de feira com aquelas sacolas coloridas que trazem muamba do Paraguai. São sacolas sobre rodas.


Até aqui nada que desabone as simpáticas senhoras.


O problema é que elas entram nos ônibus e no metrô puxando as tais sacolas depois de ter rodado pelas ruas e calçadas lamacentas, com aquela mistura de neve derretida pelo sal com poluição e fuligem dos carros, além da própria terra dos parques.


Agora vamos imaginar a cena:


Estou tentando me equilibrar no ônibus lotado, me segurando na barra presa ao teto, quando de repente uma Babushka passa por detrás de mim, puxando sua sacola com aquelas rodas imundas, que, ao passar, deixam dois riscos nas minhas calças entre a panturrilha (ou batata da perna, como queiram) e o calcanhar.


Elas não perdoam ninguém. Pode ser calças jeans, de sarja ou veludo cotelê. Deixam sua marca registrada assim como o Zorro adorava fazer com a farda do Sargento Garcia.


E mesmo quando conseguia escapar do ataque desleal no ônibus, elas me pegavam no metrô.


O pior era a gozação dos alunos na escola. Sempre que ficava de costas pra escrever na lousa, um engraçadinho emendava:


- Babushkas strike again! (As Babushkas atacam de novo!)


Mas por que precisavam daquelas sacolas melequentas? O que carregavam ali?


Não dava pra ver. Estavam sempre com o zíper fechado.


Cansado de chegar ao trabalho com aquele adorno nada comum nas pernas, resolvi investigar.


Certo dia enquanto esperava o ônibus, uma, duas, três Babushkas se juntaram no ponto, conversaram e quando o ônibus chegou, duas entraram enquanto a terceira que ficou no ponto, continuava a deferir frases incompreensíveis ao meu ouvido ainda nada familiarizado com aquela língua estranha.


Subi no coletivo e tratei de ficar de olho. As duas desceram na estação Yugo-Zapadnaya do metrô, passaram pela roleta com seus bilhetes de idoso e se posicionaram estrategicamente no meio da plataforma. E lá estava eu como quem não quer nada, dando uma de Sherlock Holmes tupiniquim na terra dos Czares.


Durante a viagem de metrô, meus pensamentos se multiplicavam:
Para onde vão afinal? O que levam? O que vão buscar?


É elementar, meu caro Watson!


As Babushkas vivem com pouquíssimo dinheiro de suas aposentadorias, por isso deveriam estar fazendo algo ilícito pra conseguir um trocado extra.


Claro!


Tráfico de drogas ou de órgãos! E aquela terceira que tinha ficado no ponto de ônibus seria uma espécie de chefe da gangue, somente passando as ordens do dia.


Que horror! Pobres velhinhas.


Talvez levassem documentos e encomendas de uma empresa a outra, uma vez que não há motoboys em Moscou. Elas seriam então as office-babushkas.


Por sorte elas foram até a estação Kropotkinskaya, a mesma onde eu teria que descer. Ainda tinha tempo antes da aula e assim as segui por alguns quarteirões.


Logo surgiram outras Babushkas. E mais. E mais pelo caminho, dos dois lados da rua. Cada uma puxando sua sacola, riscando as calçadas em meio à lama.


Vinham de todas as partes até que finalmente chegamos a um largo por detrás dos prédios, onde havia um pequeno mercado de rua.


Pequenos produtores rurais se juntavam ali pra vender seus produtos. Verduras, legumes, mel, algumas frutas e artesanato. Tudo a preço de banana, ou melhor, de chernika (uma frutinha do campo que a propósito, dá uma ótima geléia pra rechear as blinis. Depois é só cobrir com smetana que é um creme de leite um pouco mais espesso do que o que temos aqui).


Fim do mistério. As Basbushkas cruzam a cidade em busca desses mercados para assim poder comprar produtos fresquinhos direto do campo, muito mais em conta do que nos supermercados e garantir a cesta de ingredientes indispensáveis para suas receitas apetitosas.


Só que nessa estória toda, quem paga o alto preço são os passageiros dos ônibus e metrô com suas calças indefesas.




sábado, 30 de janeiro de 2010

O Lada Azul



O Lada Azul


No início dos Anos 1990, quando um certo presidente do Brasil finalmente abriu as portas e os portos do país às importações, os primeiros automóveis estrangeiros a desembarcar em nosso território foram os russos da Lada.


Com certeza todos se lembram daqueles simpáticos carrinhos que foram despejados aos montes em nossas ruas e que vinham apenas em duas cores: vermelha e branca. Sempre suspeitei de que havia uma mensagem subliminar nessa combinação de cores. Os russos não dão ponto sem nó.


Muitos anos se passaram e poucos resistiram à competição desleal imposta pela chegada dos alemães, japoneses, coreanos e franceses entre outros, que com tecnologia de ponta e computadores de bordo, cairam de vez no gosto dos motoristas brasileiros. Não é preciso dizer que os russos ficaram obsoletos e rapidamente desapareceram de nossas cidades, muito mais rápido até do que a queda do muro de Berlim, por assim dizer.


Mas em Moscou a estória é bem diferente. Assim que desembarquei por lá, notei uma quantidade imensa de Ladas nas ruas da grande capital russa, o que me trouxe um certo saudosismo e recordei com saudades dos bons tempos dos idos de 1990.


Porém algo nesse cenário me intrigava, como quase tudo é intrigante na gigante Rússia. Como nossos camaradas poderiam ter conservado tão bem todos carros antigos? Eles pareciam novinhos em folha, não podiam ter sido fabricados há tanto tempo.


E não eram. Logo pude constatar que a maioria dos Ladas que eu via nas ruas tinha sido fabricada nos últimos anos. A verdade é que eles ainda fabricam aqueles carros com o mesmo design dos que vieram para o Brasil muitos anos atrás. Por isso tive a impressão de que se tratava de carros antigos bem conservados.


O meu vizinho Sergey tinha um. Era um Lada Sputinik azul marinho fabricado em 2007. Lindão! Sempre que o via estacionado em frente ao nosso prédio, parava para apreciá-lo. Ficava pensando que se pudesse dirigir um daqueles pelas ruas de Moscou, me sentiria um pouco mais moscovita. É claro que com a chegada dos importados por lá, o Lada se tornou muito mais um símbolo nacional do que o carro favorito das famílias russas.


Um certo dia, enquanto olhava o interior do carro através dos vidros, o Sergey surgiu do nada e sem que eu pudesse notar se aproximou e deu um tapinha nas minhas costas - tapinha é modo de dizer, quase engoli sem mastigar o último pedaço do peroshki (uma espécie de pastel assado muito popular) que estava comendo - e me perguntou em russo é claro:


- Quer comprar?
Em seguida riu muito, acho que sabia que eu não tinha entendido nada pois respondi que sim. Achei que a pergunta tinha sido algo como: Bonito né?
Ainda bem que depois disso ele nunca mais tocou no assunto. Aliás, segundo as más línguas e algumas fofoqueiras de plantão, o Sergey seria um fervoroso membro da máfia russa, coisa que nunca quis averiguar.
Melhor nem ficar sabendo. A verdade é que ele era mesmo muito reservado, não o via conversando com ninguém. Nem mesmo durante as reuniões de condomínio na época que era preciso definir a situação das garagens. Mas isso é uma outra estória.
Meu próximo encontro casual com o Sergey seria ainda mais inusitado.
Numa tarde gelada de inverno, daquelas que a gente fica se perguntando porque é preciso sair de casa, esbarrei com ele na porta do supermercado. Assim que me viu foi logo me passando as sacolas que trazia e um tanto quanto apressado disse:
- Moya machina tam. (Meu carro está ali.)
Para bom entendedor meia palavra basta, mas aquilo para o Sergey tinha sido um parágrafo inteiro.
Em seguida ele voltou desesperadamente para o interior da loja. Pela expressão de preocupação em sua face, deduzi que pudesse ter perdido alguma coisa, a carteira talvez.
Nas sacolas muito pesadas, diga-se de passagem, havia de um tudo. Queijo, salame, torradas, latas e mais latas de azeitonas e é claro muitas garrafas de vodca.
Tratei de procurar o Lada azul e logo o avistei do outro lado da rua, bem em frente ao supermercado. Não era uma rua movimentada, apenas um acesso estreito à loja. Fui direto ao porta-malas, apertei o botão e "ploc", a tampa se abriu como uma catapulta para atirar pedras em guerras medievais. Dentro havia de tudo um pouco: o estepe que parecia estar murcho, caixa de ferramentas, um taco de hoquei, duas garrafas de kvas (bebida típica parecida com cerveja sem alcool) já pela metade, uma jaqueta de couro muito mal cheirosa entre outros badulaques. Ajeitei um espaço e coloquei cuidadosamente as sacolas de modo que as garrafas não corressem nenhum um risco de se quebrarem no caminho. Bati a porta que não se fechou. Tentei novamente sem sucesso. Mas na terceira vez não tive dó do meu carrinho favorito e finalmente ouvi o "clique" da fechadura macia.
Agora estava pronto para as minhas compras. Mas não antes de encontrar o Sergey novamente na saída e agora ele parecia muito mais tranquilo. Vi que trazia a carteira em uma das mãos. Ele me deu um aperto de mão típico russo, aquele que quase fratura todos os ossos e a gente fica com a sensaçao de que não sobrou dedo nenhum nem pra jogar par ou ímpar.
- Agora está tudo bem, ele disse.
Fiquei feliz em poder ter ajudado meu vizinho. Se ele fosse mesmo da máfia, nessas alturas eu já teria ganho uns pontos com os camaradas.
Ele ainda entrou no banco ao lado do supermercado e eu fui direto para a seção de frutas.
Mas o pior ainda estava por vir. Parece que era mesmo uma tarde para se arrepender de ter saído de casa.
Ao sair da loja notei que o carro ainda estava lá. Estranhei pois tinha ficado lá dentro um bom tempo. Antes que eu pudesse pensar no que teria acontecido, vi um casal se aproximar do carro, entrar e sair acelerando, jogando para os lados aquela neve escura que já se misturava com a fuligem e a poluição.
Nesse momento pensei: Agora a coisa ficou russa. Bateu aquele frio na barriga, as pernar começaram a tremer e o coração só não saiu pela boca porque sabia que seria congelado. Não tinha mais conserto. Precisava correr para casa. Ou talvez fosse melhor nem aparecer por lá por uns dias. O Sergey ia querem me matar quando abrisse o porta-malas e não encontrasse suas sacolas. Nessas alturas já tinha descoberto. Como eu iria explicar que as tinha colocado no carro errado? Nenhum russo gosta de perder suas garrafas de vodca. Ainda mais um mafioso. Que estúpido! Por que fui colocar as sacolas no primeiro Lada azul que vi? Deveria haver dezenas deles só no nosso quarteirão.
O caminho nem era tão longo assim, mas naquela tarde parecia a estrada de ferro transiberiana. Pode levar meses para cruzar esses país imenso de trem. Queria correr, mas a espessa camada de gelo que se formava nas calçadas as tornavam muito escorregadias. Já tinha visto muito gente cair.
Finalmente cheguei. E lá estava o Lada azul em frente ao prédio, no mesmo lugar de sempre. Não quis olhar. Traidor! Pensei. Senti ódio daquele carrinho. Não tinha mais nenhuma simpatia por ele. Se queria mesmo me sentir um moscovita de verdade, de agora em diante seria melhor dirigir um Volga, que é uma outra marca de carros russos, muito mais modernos. E talvez nem um pouco traiçoeiros.
Entrei tropeçando no elevador e lembrei que tinha uma garrafa de vodca em casa. Nem sabia ao certo se era uma marca de qualidade. Tinha ganho dos alunos de uma empresa onde trabalhava. Achei que seria uma boa idéia levar para o Sergey como um pedido de desculpas. É claro que o restante: o queijo, o salame, as azeitonas, ficariam na saudade.
Deixei minhas compras em cima da mesa, apanhei a garrafa de vodca e desci um andar até o apartamento dele. Ainda não sabia direito como iria explicar. Ele não falava inglês, apesar de entender algumas palavras. Parei em frente à porta, respirei fundo e toquei a campainha. Podia ouvir a música que vinha lá de dentro e até acompanhei a melodia.
Até que a porta se abriu, senti aquele nó na garganta e imediatamente as palavras sumiram da minha boca seca.
Não era o Sergey. Era o mesmo casal que tinha visto há pouco em frente ao supermercado. Fiquei confuso. Não sabia o que dizer. Não conseguia lembrar como se pergunta: "O Sergey está?" em russo.
Felizmente, antes que a situação ficasse ainda mais embaraçosa, avistei a Tanya, namorada do Sergey, e o próprio que vinham da cozinha com canapés feitos de queijo, salame e azeitonas.
Eles sorriram, me convidaram pra entrar e agradeceram pela vodca que eu trazia. É claro que não estavam me esperando, mas me receberam muito bem e me apresentaram aos seus amigos Vladimir e Natasha.
Mais tarde, depois de uns dois ou três copos e uns pickles de pepino que segundo eles é o melhor acompanhamento para a vodca, e conversando com a Natasha que falava inglês fluentemente, vim a saber que todos estavam juntos naquela tarde no supermercado, mas que para ganhar tempo haviam se separado naquele momento em que encontrei o Sergey.
Pra ser sincero, nessas alturas já tinha esquecido completamente do acontecido. Além de que, russos e brasileiros são muito parecidos quando se sentam com amigos ao redor de um mesa, com suas comidas e bebidas típicas. A alegria, a descontração e o bom humor tomam conta do ambiente. Isso é, o bom humor ficou por conta deles pois não conseguia entender o sentido das piadas que contavam, nem com todo o esforço da Natasha para traduzi-las.
Na manhã seguinte, como de costume, ao levantar fui até a janela da cozinha pra conferir a temperatura no termômetro que ficava fixo do lado de fora. Vinte graus abaixo de zero! E lá estava o Lada azul completamente coberto pela neve branca que caíra durante a noite.
- Bom dia, camaradinha! Murmurei.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Quando a coisa ficou russa


Quando a coisa ficou russa

Algumas das estórias narradas a seguir aconteceram comigo. Outras aconteceram com pessoas que conheci e, outras, bem, outras já nem me lembro bem se realmente aconteceram ou se são apenas fruto da minha imaginação fértil.

A verdade é que tudo começou quando recebi uma proposta para ensinar inglês numa escola de idiomas em Moscou, na Rússia.

Na Rússia?!! Foi isso que meus amigos exclamaram quando souberam da novidade. Todos achavam que eu não voltaria mais. Acreditavam que eu poderia me tornar prisioneiro da KGB ou mesmo refém da perigosa máfia russa.

Que nada! A KGB nem sequer existe mais, pelo menos não com esta sigla. E máfia por máfia, nem é preciso dizer que no Brasil também estamos muito bem servidos neste quesito.

Desafio aceito, embarquei na mais rica experiência profissional e cultural da minha vida.

Mas isso aqui não é um livro sobre dicas de viagem ou diário de férias. Também não tenho a pretensão de ensinar geografia ou política econômica moderna do leste Europeu.

Meu objetivo aqui é relatar de uma forma muito bem humorada as mais embaraçosas encruzilhadas nas quais nos encontramos quando a principal barreira é a falta de comunicação. Quem nunca se viu numa saia justa num país estrangeiro por não saber falar a língua local? E o que dizer então quando não conseguimos ler as placas nas ruas, nas estações de metrô e nas lojas? É preciso lembrar que os russos usam o alfabeto cirílico, que é completamente diferente do nosso bom e velho latino. E se o caixa do supermercado começar a fazer perguntas do tipo "Vai pagar com crédito ou débito?" "Quer a nota fiscal russa ou paulista?"

Aconteceu comigo em Moscou, mas poderia ter acontecido com qualquer pessoa em qualquer canto do planeta. São muitas as enrascadas e armadilhas em que podemos nos meter quando tudo é novo, diferente, estranho e na maioria das vezes completamente incompreensível.

É claro que por tabela, muito dos aspectos culturais e sociais, estilo de vida, comportamento e outras características do dia-a-dia do povo russo acabam sendo descritos em cada estória, numa tentativa de ilustrar com riqueza de detalhes as mais inusitadas situações.

E o mais interessante foi descobrir no final que apesar das inúmeras diferenças, o Brasil e a Rússia tem algo muito bacana em comum: um povo que nunca perde a esperança e sempre acredita em dias melhores para todos!