As Babushkas Sacoleiras A palavra "Babushka" significa vovó ou vovozinha. Elas são um símbolo da cultura russa. Figurinhas fáceis no cenário da grande capital e também das cidades menores. São elas que preparam as mais deliciosas receitas que passam de geração para geração, perpetuando assim a culinária local. Todos por lá adoram as famosas "cotletas", muito parecidas com as nossas almondegas, os "peroshkis" que são um tipo de pastel assado normalmente recheado com repolho temperado, o borshe que é a mais tradicional sopa russa feita com beterraba, as saborosas "blini" que nada mais são do que panquecas e tantas outras delícias que só as vovós sabem fazer.
Porém, uma característica das Basbushkas que muito me chamou a atenção foi a disposição com que elas cruzam a cidade em todas as direções a qualquer hora do dia. Faça chuva ou caia neve, lá estão as queridas velhinhas pra lá e pra cá com suas sacolas de rodinhas.
- Sacolas de rodinhas? Como assim?
Exatamente. As Babushkas na maioria das vezes carregam um tipo de sacola que parece ter surgido do cruzamento dos nossos folclóricos carrinhos de feira com aquelas sacolas coloridas que trazem muamba do Paraguai. São sacolas sobre rodas.
Até aqui nada que desabone as simpáticas senhoras.
O problema é que elas entram nos ônibus e no metrô puxando as tais sacolas depois de ter rodado pelas ruas e calçadas lamacentas, com aquela mistura de neve derretida pelo sal com poluição e fuligem dos carros, além da própria terra dos parques.
Agora vamos imaginar a cena:
Estou tentando me equilibrar no ônibus lotado, me segurando na barra presa ao teto, quando de repente uma Babushka passa por detrás de mim, puxando sua sacola com aquelas rodas imundas, que, ao passar, deixam dois riscos nas minhas calças entre a panturrilha (ou batata da perna, como queiram) e o calcanhar.
Elas não perdoam ninguém. Pode ser calças jeans, de sarja ou veludo cotelê. Deixam sua marca registrada assim como o Zorro adorava fazer com a farda do Sargento Garcia.
E mesmo quando conseguia escapar do ataque desleal no ônibus, elas me pegavam no metrô.
O pior era a gozação dos alunos na escola. Sempre que ficava de costas pra escrever na lousa, um engraçadinho emendava:
- Babushkas strike again! (As Babushkas atacam de novo!)
Mas por que precisavam daquelas sacolas melequentas? O que carregavam ali?
Não dava pra ver. Estavam sempre com o zíper fechado.
Cansado de chegar ao trabalho com aquele adorno nada comum nas pernas, resolvi investigar.
Certo dia enquanto esperava o ônibus, uma, duas, três Babushkas se juntaram no ponto, conversaram e quando o ônibus chegou, duas entraram enquanto a terceira que ficou no ponto, continuava a deferir frases incompreensíveis ao meu ouvido ainda nada familiarizado com aquela língua estranha.
Subi no coletivo e tratei de ficar de olho. As duas desceram na estação Yugo-Zapadnaya do metrô, passaram pela roleta com seus bilhetes de idoso e se posicionaram estrategicamente no meio da plataforma. E lá estava eu como quem não quer nada, dando uma de Sherlock Holmes tupiniquim na terra dos Czares.
Durante a viagem de metrô, meus pensamentos se multiplicavam:
Para onde vão afinal? O que levam? O que vão buscar?
É elementar, meu caro Watson!
As Babushkas vivem com pouquíssimo dinheiro de suas aposentadorias, por isso deveriam estar fazendo algo ilícito pra conseguir um trocado extra.
Claro!
Tráfico de drogas ou de órgãos! E aquela terceira que tinha ficado no ponto de ônibus seria uma espécie de chefe da gangue, somente passando as ordens do dia.
Que horror! Pobres velhinhas.
Talvez levassem documentos e encomendas de uma empresa a outra, uma vez que não há motoboys em Moscou. Elas seriam então as office-babushkas.
Por sorte elas foram até a estação Kropotkinskaya, a mesma onde eu teria que descer. Ainda tinha tempo antes da aula e assim as segui por alguns quarteirões.
Logo surgiram outras Babushkas. E mais. E mais pelo caminho, dos dois lados da rua. Cada uma puxando sua sacola, riscando as calçadas em meio à lama.
Vinham de todas as partes até que finalmente chegamos a um largo por detrás dos prédios, onde havia um pequeno mercado de rua.
Pequenos produtores rurais se juntavam ali pra vender seus produtos. Verduras, legumes, mel, algumas frutas e artesanato. Tudo a preço de banana, ou melhor, de chernika (uma frutinha do campo que a propósito, dá uma ótima geléia pra rechear as blinis. Depois é só cobrir com smetana que é um creme de leite um pouco mais espesso do que o que temos aqui).
Fim do mistério. As Basbushkas cruzam a cidade em busca desses mercados para assim poder comprar produtos fresquinhos direto do campo, muito mais em conta do que nos supermercados e garantir a cesta de ingredientes indispensáveis para suas receitas apetitosas.
Só que nessa estória toda, quem paga o alto preço são os passageiros dos ônibus e metrô com suas calças indefesas.
Prefiro as sacolas sobre rodas das babushkas do que as mochilas de rodinhas, totalmente inúteis, dos neo-executivos. Ponto pra URSS.
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