Quando ouvia falar em cavaleiros e naquelas intermináveis batalhas Medievais, a primeira lembrança que vinha a minha mente não poderia ser outra senão o invencível Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. As famosas novelas de cavalaria que estão presentes em qualquer estudo que se faça da literatura inglesa. Por conta das Cruzadas, a história ainda retrata passagens por países como a Espanha, França e quase toda a Europa Central.
Porém nunca tinha ouvido falar que essa tradição também havia chegado às terras distantes da Rússia, até encontrar um verdadeiro Cavaleiro Medieval Russo: O Gennady.
Era horário de almoço e eu estava sentado numa cafeteria muito popular em Moscou chamada Coffee House, quando um senhor muito alto e magro, com barba e cabelos compridos se aproximou e pediu para se sentar, uma vez que não havia nenhuma outra mesa disponível. Muito educadamente ofereci um lugar e antes mesmo que ele pusesse sua bandeja sobre a mesa, começamos a conversar em inglês, pois ele notara que se tratava de um estrangeiro.
Estranhei pois tinha certeza que tinha dito: "Sente-se por favor" em alto e bom russo, quase como um nativo. Talvez meus olhos castanhos tenham me entregado dessa vez.
A conversa começou a ficar muito interessante quando ele me disse que além de professor de História na Universidade de Moscou, ele ainda era responsável por um centro de tradições medievais que trabalha para manter viva a magia das batalhas dos bravos cavaleiros da Idade Média.
O nome mais expressivo dessa época na Rússia foi sem dúvida Alexsander Nevsky, o grande Príncipe de Vladimir, que com enorme coragem derrotou invasores Suecos, Germânicos e Mulçumanos além de ser responsável por vários tratados que expandiram o território Russo em todos os pontos cardeais.
Fiquei tão empolgado com as estórias contadas pelo meu novo amigo "medieval" que resolvi aceitar o convite que me fez para conhecer o centro de tradições que ele dirigia.
Cheguei por lá numa tarde de sexta-feira, justamente quando os cavaleiros medievais do presente se preparavam para uma espécie de treino semanal. Todos ali levavam tudo muito a sério. As roupas eram cuidadosamente confeccionadas com base na história e tinham todos os detalhes que hoje em dia só vemos em filmes.
Em poucos minutos eles tiravam os pontos de ferrugem, davam brilho e vestiam toda aquela parafernália que incluia as roupas, as botas, o capacete e as armas, que apesar de serem feitas de metal, não tinham corte e as pontas não eram afiadas, pois o objetivo era apenas demonstrar e não ferir ninguém.
Tudo pronto. A turma ia para a praça em frente ao prédio e as batalhas começavam. Dois cavaleiros lutavam até que um caísse ao solo, o que representava que estivesse morto.
O Gennady ainda me mostrou fotos e vídeos feitos em competições das quais seu grupo havia participado em vários países da Europa incluindo a Alemanha e a Ucrânia. Essas competições internacionais são levadas tão a sério que os cenários escolhidos quase sempre é um castelo, para fazer com que tudo pareça ainda mais real.
Não satisfeito em apenas assistir aos combates naquela tarde/noite, fui mais ousado em aceitar participar na sexta-feira seguinte de uma pequena apresentação que eles fariam naquele mesmo local. Era minha chance de voltar no tempo e viver pelo menos por alguns minutos numa época de heroísmo e glória que sempre havia me despertado o interesse.
Cheguei bem mais cedo para que o Gennady me desse as devidas instruções de como lutar, manejar a espada e o escudo, o que confesso não é nada fácil, principalmente depois que se tem quilos e mais quilos de roupas de aço sobre o corpo. Na verdade ao invés de ouvir atentamente aos ensinamentos do mestre, ficava imaginando a dor no pescoço que teria mais tarde por tentar equilibrar aquele capacete que me manteria vivo, caso o meu oponente me acertasse na cabeça.
Pronto ou não, não tinha mais tempo. Era hora de partir para uma luta de vida ou morte. Entrei no campo de batalha e lá estava meu inimigo. Sabia das minhas limitações, mas fiquei mais confiante ao notar que ele não era assim tão maior que eu. O início parecia mais uma dança do que uma luta. Os dois cavaleiros se estudavam, trocavam alguns poucos golpes de espada somente para medir forças. Mas para a galera que se juntava para assistir ao combate, o trincar das espadas se chocando no ar e o estrondo causado por uma defesa com o escudo, eram comemorados como um gol num clássico de futebol.
Um minuto havia se passado, mas para um cavaleiro iniciante aquilo era uma eternidade. Minhas pernas já não aguentavam todo aquele peso. Levantar a espada custava muito. Assim decidi que era matar ou morrer. Parti pra cima com tudo. Ergui a espada perpendicularmente e a deixei cair na direção da cabeça do meu inimigo.
A defesa foi imediata. Sua espada veio cortando os ares tão violentamente que arremessou a minha a metros de distância, se perdendo na camada de neve espessa. E na mesma fração de segundo em que assistia minha arma voar ao longe, senti o peso da espada dele estourar no meu peito...
Tinha sido uma defesa em cima e um golpe embaixo. Só um cavaleiro experiente poderia ter reagido com tamanha destreza e ao mesmo tempo mandar seu oponente ao solo quase que concomitantemente.
Fiquei estatelado no chão por alguns segundos. Nem ao menos sentia a neve fria envolta ao meu corpo.
Quando finalmente abri os olhos vi que muitas pessoas me rodeavam. Muitos olhares de apreensão e preocupação. Outros apenas curiosos.
Fiz um sinal de positivo para o Gennady que aliviado, imediatamente fez com que a multidão se dispersasse.
Mas ainda levaria o golpe final. Ao tentar me levantar avistei meu inimigo, que já se retirava do campo de batalha, levando consigo os louros da vitória. Já sem o capacete reconheci a Svetlana, filha do Gennady, com seus longos cabelos ruivos a rolar no vento e seus olhos azuis que pareciam iluminar aquela noite escura.
Não tive outra sorte. Morri logo na minha primeira batalha. Era o fim de mais um bravo Cavaleiro Medieval.
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